Neste mundo novo, dominado por relações e reações rápidas, pela distância e instantaneidade de um clique, tudo parece desmoronar-se à nossa volta. As certezas antigas de um fim histórico pré-definido e enquadrado nas medidas do fim da Guerra Fria esboroam-se num aparente clima de anarquia internacional.

Os que antes lideravam a ordem, decidem agora agitá-la, torná-la indecifrável nos seus próximos desenvolvimentos, numa turbulência desconhecida há décadas… ou apenas desconhecida para alguns? A política externa dos Estados Unidos da América mudou o rumo ou afinou o futuro através de um diapasão antigo e imemoriável?

Tantas questões, um só mundo. Numa altura em que nos apercebemos da cada vez maior interdependência de fenómenos que se estendem da economia, à sociedade e às alterações climáticas, como entender este regresso a um mundo gerido a partir de interesses nacionais das maiores potências? Talvez seja um bom recurso olhar para a cronologia dos acontecimentos e procurar o que é realmente novo em tudo isto. Também ajudará relativizar o fenómeno. Por que sentimos nós tanta turbulência quando esta sempre esteve em nosso redor? Talvez porque para nós seja novidade, enquanto para outros foi uma constância.

Em redor da Europa foram caindo regimes políticos, como aconteceu nas Primaveras Árabes, outros sucumbiram a guerras civis e outros ainda foram-se mantendo no tempo e no espaço. Mas, nas fronteiras do espaço Schengen, a agitação chega com a guerra na Ucrânia, como se o estilhaçar dos Balcãs já não tivesse provado que o continente europeu não era imune à sangria da guerra.

A surpresa com que muitos falaram da invasão da Ucrânia, isolando o acontecimento no tempo e no espaço, parece desconectada deste mundo à distância de um clique que há muito deixava entrever a possibilidade de uma escalada de posições relativamente a este país.  Esta guerra serviu de alerta para um mundo que se transformava rapidamente e em que territórios, outrora seguros das suas alianças e da estabilidade das zonas de influência, mais ou menos expansivas, se viam confrontados com um complexo mundo novo que não era imune ao conflito violento.

A ação do Presidente Trump no caso da Venezuela, mesmo depois de todos os desenvolvimentos da Guerra na Ucrânia e da guerra em Gaza, foi aos olhos de muitos um ato isolado, típico do contexto específico da América Latina, habituada a intervenções mais ou menos diretas dos Estados Unidos e justificadas em nome de um qualquer bem maior.

É com assombro que as notícias do interesse norte-americano na Gronelândia ou mesmo no Canadá são recebidas. Mas será assim tão surpreendente no âmbito desta política externa de regresso ao passado?

Atrás da história

Escondidas na história encontramos vozes emudecidas, trajetos esquecidos e conceitos pré-definidos que não se sabe bem de onde vieram. Por exemplo, a selva de que Josep Borrel, antigo representante da Comissão Europeia para os assuntos internacionais e segurança, não é baseada numa perspetiva de superioridade social e política que a Europa foi mantendo ao longo dos séculos? Seria esta opinião assim tão isolada? Os movimentos nacionalistas europeus e a forma como se tem feito a política externa do bloco europeu parece confirmar que existem mais adeptos desta visão do mundo.

Contudo, se formos atrás da história, encontraremos pormenores fascinantes que nos ajudam a questionar a centralidade do mundo a que pertencemos e até que ponto estamos perante um mundo novo cujas complexidades vemos dificuldade em entender.

O livro de William Dalrymple, intitulado “A Rota do Ouro”, editado em português pela D. Quixote, é um dos testemunhos sobre a história descentrada do mundo e que contribui com um novo olhar para o papel desse tempo histórico no presente. Neste livro, o autor explora a forma como a Índia contribuiu para a transformação do mundo, em articulação com outras influências que predominavam no mundo asiático.

Através da obra, percebe-se que naquele continente existe uma dinâmica efervescente de contactos entre civilizações, de zonas de influência, ora interrompidas, ora camufladas pela entrada em cena dos impérios coloniais ocidentais. Contudo, a Conferência de Bandung, na Indonésia, em 1955, mostrava que estes países mantinham essa memória de cruzamentos dos grandes impérios culturais locais.

Colocando no centro desta história asiática, “A Rota do Ouro” mostra-nos um mundo a diversas cores e hierarquias que não via no mundo ocidental o seu centro e traz esse raciocínio até ao presente. Não é surpreendente nem exótico que essa outra parte do mundo tenha decidido contribuir para a ordem internacional, tanto quanto os países que a determinaram no pós-Segunda Guerra Mundial.

Outro aspeto a considerar para não se ser surpreendido ou ultrapassado pelos factos baseia-se na necessidade de entender os fenómenos na sua complexidade. A Guerra e Paz editou o livro “Poucos mas Bons: Portugal e a sua Marinha no Combate ao Tráfico de Escravos (1837-1904)”, da autoria de Jorge Moreira Silva que lança um olhar relevante sobre o combate ao tráfico de escravos do Oceano Atlântico e da forma como a Marinha portuguesa esteve diretamente envolvida no mesmo. Este livro é um excelente complemento às obras do Marquês de Sá da Bandeira que mostram a complexidade de todo este processo, relativizando o papel britânico face a todos os outros papéis e interesses nacionais em diálogo.

Quando olhamos o presente, ter noção deste passado, da relativização dos factos e da descentralização dos fenómenos políticos, sociais e culturais, ajuda a perceber o presente e, sobretudo, a não ser surpreendido pelos eventos contemporâneos. Estas duas obras são parte desse processo de alargamento de perspetivas.

De trás para a frente

A história das relações internacionais elucida sobre a distância que foi percorrida para firmar tentativas de governação internacional, mas também mostra todas as vezes que houve retrocessos e desrespeito por essas tentativas de encontrar uma governação satisfatória para todos.

Os Estados Unidos da presidência Trump recuperam práticas de política externa norte-americana do passado e tentam torná-las aceitáveis globalmente nos dias de hoje. A anexação, compra de territórios ou colonização foi uma prática do país nos séculos XVIII e XIX e a doutrina geopolítica sempre estendeu o conceito de ameaça à segurança nacional muito para além das fronteiras do estado. Assim sendo, tanto o presidente como os seus seguidores defendem uma ação externa norte-americana racional, mas mais do que assertiva, agressiva, em que as alianças são relegadas para segundo plano, em nome do interesse nacional.

Nesse novo e complexo mundo, todas as jogadas são possíveis e têm que deixar de ser surpreendentes. A cenarização passa ser um elemento essencial para a decisão política e é determinante alargar o conhecimento sobre o presente, tendo em conta o passado, e não se deixando convencer por “hegemonias” que afinal podem nunca ter existido. A relativização e a descentralização das relações internacionais tornam-se essenciais perante um ator global e hegemónico que parece preferir o caos à ordem e a imposição à negociação.

O Presidente Trump continuará ancorado na sua perspetiva de líder mundial, olhando com desdém para todos os outros continentes e países. Mas todas as outras partes que constituem a ordem internacional têm alternativa a essa centralidade e podem relativizar o seu impacto.