Marcelo Rebelo de Sousa já deixou o aviso: o próximo Presidente “vai ter tarefa mais difícil”, tendo em conta o mundo atual, “mais instável”, o que “torna a política mais difícil, as decisões económicas mais difíceis”.
O atual inquilino de Belém lembra a crise na Venezuela e a posição portuguesa de que se devia “respeitar a carta da ONU”, e é taxativo quanto às pretensões de Trump em anexar a Gronelândia, considerando que tudo o que seja uma intervenção que signifique o desrespeito do direito internacional não pode ser aceite e subscrita por Portugal.
O ainda chefe de Estado tem razão. O próximo Presidente vai ter uma tarefa mais difícil do que aquela que ele próprio enfrentou, num mundo que considera cada vez mais “imprevisível”, num ciclo económico que tende a agravar-se e em que as tensões geopolíticas deixam nas mãos dos governos decisões difíceis e impopulares que alimentam os extremismos.
Com nuvens carregadas e incertas no ambiente externo, os desafios também se colocam dentro de portas. A habitação tornou-se privilégio em vez de direito, e é preciso coragem política para dar prioridade à saúde, que não tem respondido aos problemas que lhe são colocados. Dois aspetos fundamentais para a coesão nacional, a que se junta um outro desafio: o reforço dos gastos em defesa, um investimento de 5,8 mil milhões de euros, com receios do desmantelamento do Estado social e a opacidade na sua aplicação.
Sendo assuntos da governação, exigem um papel vigilante e exigente do próximo Presidente da República que sair da segunda volta das eleições. Um novo round histórico que repete o cenário de há 40 anos com um quadro político inverso. Em 1986, a direita estava unida e a esquerda dividida. Hoje, a direita está fragmentada por três candidaturas diferentes e a esquerda unida em torno de Seguro, que disputará a segunda volta com André Ventura – os vencedores da primeira volta das eleições. As primeiras em que os portugueses se preparam para escolher um Presidente da República que não teve um papel histórico no início do regime saído do 25 de Abril.
Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva ou Marcelo Rebelo de Sousa foram figuras ativas nos primeiros anos da democracia. E marcaram esses anos, cada um ao seu estilo, uns mais reservados, outros mais expansivos. Tomaram decisões que influenciaram o curso político do país, mas sem poderes executivos para decidirem o que alguns dos atuais candidatos presidenciais tanto parecem querer decidir.
Muitos apontam o dedo a Ventura – que anunciou no domingo ser líder da direita, o que é o contrário de ser Presidente – e à tentativa de presidencializar o regime, governando a partir de Belém. Ao posicionar-se como neutro na segunda volta das presidenciais, Montenegro alimenta a aspiração de Ventura de substituir o PSD na governação.
A única certeza do próximo mandato presidencial é a incerteza. Importa, por isso, responder à questão: que tipo de presidente Portugal precisa neste mundo cada vez mais perigoso? Embora não governe, o Presidente da República deverá ser capaz de ajudar a resolver crises internas e externas, ter sentido de Estado e vontade de construir pontes. Deverá ser fator de consenso e não de desestabilização. A Presidência da República é o último reduto de defesa da nossa democracia.



