O intenso “Nuremberga”, de James Vanderbilt, passa-se quase só em espaços exíguos e fechado na relação entre o ambicioso psiquiatra Douglas Kelley (interpretado por Rami Malek) e o Reichsmarschall Hermann Göring (um papelão de Russell Crowe). E há uma cena em que a dinâmica entre os dois muda, em que quem conduz passa a ser conduzido, num jogo de dissimulação e manipulação. Göring alerta Douglas que deve proteger-se, porque a chegada de um novo médico o põe em causa. “Porque deveria proteger-me de um aliado”, pergunta o psiquiatra. “Só porque um homem é seu aliado não significa que esteja do seu lado”, retorque o homem que ocupou o mais alto posto militar da Alemanha Nazi.

A Europa, que mostra dificuldade em ler os tempos e a relação de forças fora do quadro geopolítico que ambiciona como real, devia ver e rever esta cena e apreender todo o cinismo que ela encerra. Todos os aliados têm interesses próprios, além do interesse comum que justifica aliarem-se. Portanto, a relação não pode nunca ser de dependência, porque os pressupostos se alteram.

A ligação entre os dois lados do Atlântico assenta na história, mas também nas ideias, e tudo tem de ser repensado quando estas deixam de ser partilhadas. Os Estados Unidos estilhaçaram o legado do multilateralismo porque anteveem melhores resultados numa geopolítica de potências e de ordens diversas. Chegados aqui, é tempo de a Europa também esquecer o legado da II Guerra Mundial e da dívida de gratidão para com a intervenção americana. Para que não se reveja na chocante história familiar que Hermann Göring usa, no filme, para demonstrar a sua tese, em que para manter o benefício da aliança se perde a dignidade.