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Só os imigrantes têm feito crescer emprego

Entre entradas e saídas, o número de empregos ocupados por portugueses ficou praticamente na mesma em 2023 e teve uma ligeira queda em 2024, ao contrário dos imigrantes, sublinham economistas do Banco de Portugal.
23 Janeiro 2026, 06h38

A relevância da imigração para o mercado de trabalho é conhecida, mas um estudo de três economistas do Banco de Portugal deixa ainda mais clara a dependência: tanto em 2023 como em 2024, os números do emprego só cresceram por causa da mão de obra imigrante.

“A criação líquida de emprego em Portugal, em 2023-2024, correspondeu, exatamente, ao aumento de trabalhadores estrangeiros no mercado de trabalho”, resume Pedro Duarte Neves, editor da Revista de Estudos Económicos do Banco de Portugal, onde o estudo foi publicado.

Os autores — Sónia Félix, Fernando Martins e Ana Catarina Pimenta — consideram que “a intensificação dos fluxos líquidos migratórios em Portugal desde 2019 tem contribuído para o dinamismo do mercado de trabalho, atenuando dificuldades de contratação em determinados setores e sustentando o crescimento do emprego”. A taxa de contratação líquida da economia no seu todo foi positiva em 0,9% ao longo de 2023 e 0,8% em 2024, precisamente as taxas registadas entre trabalhadores com nacionalidade estrangeira.

Nos dois anos, houve sempre mais portugueses a serem contratados do que imigrantes, mas essas entradas foram totalmente absorvidas pelas saídas, gerando um efeito neutro em 2023 e um contributo ligeiramente negativo (menos 0,1%) em 2024.

Imigrantes recebem menos
Este estudo, que analisa o papel da mobilidade laboral na dinâmica salarial do país a partir de dados da Segurança Social, mostra que os trabalhadores que mudaram de empresa tiveram, em média, aumentos salariais no momento da nova contratação entre 1,4% (em 2015) e 4,6% (em 2022). Depois disso, o número foi caindo, até atingir 3,2% em 2024.

No entanto, referem os autores, os aumentos ”foram, em média, inferiores no caso dos trabalhadores com nacionalidade estrangeira”.

“Os resultados sugerem que o acesso dos trabalhadores estrangeiros a empresas com salários mais elevados é mais segmentado e que estes dispõem de menor poder negocial, reduzindo a sua capacidade para obter um prémio salarial quando mudam de emprego”, concluem os economistas. “Esta evidência sublinha que a integração de trabalhadores com nacionalidade estrangeira nos segmentos mais dinâmicos do mercado de trabalho pode simultaneamente acelerar a reafetação e amplificar a desigualdade”.

Tendo em conta “o forte aumento do peso de trabalhadores com nacionalidade estrangeira nas transições entre empregos”, os economistas explicam que “este padrão assume crescente importância no agregado”. Entre 2011 e 2014, quando a Troika resgatou o país, os imigrantes representavam apenas 4,2% das mudanças de emprego, depois passou para 7,7% entre 2015 e 2019, e já atingiu os 31,5% entre 2020 e 2024. No caso dos portugueses, cerca de um quarto das novas admissões de trabalhadores corresponderam a transições diretas para outro trabalho.

Esta é uma evolução, notam os economistas, que “evidencia o papel crescente dos trabalhadores de nacionalidade estrangeira no dinamismo do mercado de trabalho”, refletindo, em simultâneo, “tendências migratórias mais amplas e a sua progressiva integração no mercado de trabalho português nos últimos anos”.

Turbulência no mercado
De forma mais ampla, o estudo faz um retrato que não coincide com a perceção geral de um mercado de trabalho estagnado . “A evolução agregada dos salários e os indicadores de emprego ocultam uma turbulência substancial no mercado de trabalho português”, sustentam os autores. Os microdados da Segurança Social usados para este estudo “mostram que a mobilidade laboral é generalizada e heterogénea, e que por detrás de trajetórias agregadas relativamente estáveis existem fluxos de trabalhadores intensos e que se compensam: contratações, separações e transições diretas entre empregos ocorrem em grande escala, compensando-se em grande medida e contribuindo para a reorganização contínua da força de trabalho”.

No entanto, mudar de emprego não significa necessariamente uma subida do salário, uma vez que “cerca de um terço não registam qualquer alteração salarial e aproximadamente 26 por cento registam perdas nominais”. Apenas “cerca de 40 por cento obtêm aumentos salariais”.

As valorizações são impulsionadas “por um grupo relativamente pequeno de trabalhadores que obtêm aumentos significativos”, observam os autores, “enquanto muitas transições resultam em variações nulas ou até mesmo negativas”.

Aumento salarial na mudança de emprego já é maior nas mulheres

Na hora de mudar de emprego, as mulheres beneficiam habitualmente de um prémio salarial mais baixo do que os homens. Porém, as distâncias diminuíram “de forma acentuada ao longo do tempo”, constatam Sónia Félix, Fernando Martins e Ana Catarina Pimenta, economistas do Banco de Portugal que analisaram o papel da mobilidade laboral na dinâmica dos salários. E já houve mesmo uma reversão.

“As diferenças por género mostram que os homens tendem a registar aumentos salariais imediatos superiores aos das mulheres. No entanto, esta diferença tem diminuído ao longo do tempo, tendo as mulheres ultrapassado os homens em 2024 (3,5 face a 3,2%)”.

Antes, entre 2015 e 2019, o prémio salarial masculino foi superior em 0,7 pontos percentuais (p.p). E entre 2020 e 2024 ficou nos 0,5 p.p. “Embora a mudança de emprego tenda a promover aumentos salariais para ambos os géneros, os homens têm historicamente captado um prémio ligeiramente superior”, salientam os três economistas.

Os autores referem que a convergência alcançada em 2024 “reforça o papel cada vez mais relevante da mobilidade laboral feminina no crescimento salarial agregado, em linha com a tendência de aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho”.

Entre 2011 e 2014, “as mulheres representavam 54, 3 por cento de todas as transições entre empregos”. Um valor que aumentou para 60,6% entre 2020 e 2024.

“As mulheres não só têm uma presença destacada entre quem muda de emprego, como passaram a desempenhar um papel cada vez mais relevante na reconfiguração do mercado de trabalho, contribuindo de forma expressiva para os fluxos agregados de mobilidade”, concluem os autores.


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