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Tensão, risco e suspense

Alfred Hitchcock, o cineasta que investiu no risco e na tensão, é objeto de uma vasta retrospetiva no cinema Nimas, em Lisboa. A 2ª parte do ciclo já está em curso, com 15 novos títulos.
24 Janeiro 2026, 18h00

Dizer que (Sir) Alfred Hitchcock é mestre do suspense será estafado e redutor. A sua cinematografia eternizou-se com os mais de 40 filmes que realizou e participou. Sim, são célebres as suas aparições relâmpago, os famosos cameo, para usar a terminologia anglo-saxónica. Tal como é famoso o apodo de ‘mestre do suspense’. Imortalizado pelos futuros cineastas da chamada Nouvelle Vague, que se declaravam profundos admiradores de Hitchcock, as suas afirmações categóricas agitaram as hostes no seu tempo. Como? Proclamando, alto e bom som, que “Hitchcock é um dos maiores inventores de formas em toda a história do cinema.”

Uma postura arrojada e desferida em uníssono por Claude Chabrol e Eric Rohmer, então, críticos dos Cahiers du Cinéma, num livro intitulado simplesmente “Hitchcock”. Corria o ano de 1957 e, por essa altura, o cineasta britânico ainda não tinha assinado alguns dos filmes que hoje fazem parte do vocabulário dos cinéfilos. A Mulher Que Viveu Duas Vezes, Psico, Os Pássaros, Janela Indiscreta, A Corda, O Homem que Sabia Demais. François Truffaut, jovem cineasta da Nouvelle Vague, não descansou enquanto não se sentou ao seu lado, em 1962, durante uma semana, numa sala dos estúdios da Universal, para uma série de entrevistas sobre cinema.

Em 1966, e com essas conversas como base, Truffaut editou “Le Cinéma Selon Alfred Hitchcock”, um livro sem paralelo que se tornou quase imediatamente uma espécie de bíblia para todos os amantes de cinema. O mestre que então influenciou muitos realizadores e jovens artistas, ainda hoje projeta a sua aura criativa nos cineastas contemporâneos. Dizia ele que os espetadores devem sentir uma forte emoção quando veem os seus filmes.

“De mim, esperam que eu lhes transmita a ansiedade do que vai acontecer. E isso só é possível se eu conseguir fazer com que os espetadores se identifiquem com as personagens que estão a ver.” E atirava a lógica pela janela. Porquê? Porque “há algo mais importante do que a lógica: a imaginação. E se pensarmos primeiro na lógica, não conseguimos imaginar mais nada. Muitas vezes, ao trabalhar com o meu argumentista, dou-lhe uma ideia. Ele responde: ‘Ah! Não é possível!’ Mas a ideia é boa, embora a lógica não seja boa. A lógica, atiramo-la janela fora.”

A vasta retrospetiva que o cinema Nimas lhe dedica entra agora na segunda parte, com 15 novos títulos do cineasta que abriu caminho aos thrillers e que deixou um conjunto de filmes que interpelam os recantos mais íntimos da humanidade. Mestre da manipulação de opiniões e sentimentos, não só desassossega o espetador como lhe injeta elevadas doses de emoção. Na sua ‘fase Hollywood’, o estúdio deixou nas suas mãos o controlo criativo absoluto de tudo o que realizava. Sorte a nossa.


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