A prata é um metal puro, incorruptível porque imune à ferrugem. Assim é visto historicamente. Se o ouro era o sol, a lua era a prata. Os dois dominantes, com valor. Daí ter assentado praça na imaginação como o material ideal para enfrentar forças malignas, resolver problemas. Contra o que está errado, um tiro certeiro, com bala de prata. Uma forma rápida e eficaz para solucionar qualquer questão. Mas não é verdade, infelizmente. De tal maneira, que a expressão é comummente usada pela negativa, porque não existem estas munições maravilhosas, por muito que queiramos.
Os problemas, nomeadamente os que importa resolver, que causam mossa, são demasiado complexos para serem solucionados com um tiro. É preciso mais. Disparos atempados, na forma de decisões. Identificar a parte do problema, pensar a solução, testá-la. Fazer ajustes, adaptações, quando é caso para isso, porque a realidade é um ser vivo, que evolui, não está parada. Muitas vezes nem com uma saraivada se soluciona a questão, é preciso recuar e voltar a tentar.
Isto acontece na habitação. A crise habitacional, que, distraídos, não vimos chegar e instalar-se, apesar de todos os indícios, é um problema complexo que só uma conjugação de decisões pode ajudar a enfrentar. É preciso rever legislação e regulamentos, estruturar programas, definir incentivos, tudo para agilizar uma resposta. Mas não só, também é necessária a vontade real dos agentes para se disporem a ser parte da solução. E tempo, que o que se inicia agora só vai resultar em produto mais à frente. Por isso, é necessário saber gerir as expectativas. Imperativo, principalmente em processos que extravasam os ciclos políticos e duram o suficiente para se exporem ao populismo.



