Os portugueses confiam na União Europeia e situam-se entre os europeus com imagem mais positiva da Europa. Estudos recentes indicam que cerca de 68 a 79% dos inquiridos confiam nesta magnífica empreitada comum e expressam-no através de níveis elevados de satisfação. E, no entanto, não é isso que resulta dos anos e anos em que já faço esta pergunta aos mesmos portugueses idilicamente descritos nos estudos de opinião. Os empresários e gestores reconhecem a importância política, económica e social da UE, mas as fraquezas que lhe apontam calam os sinos que repicam em Bruxelas. Regulação em excesso, lentidão, falta de visão e ausência de liderança ganham a dianteira e fazem os sinos dobrar em antecipação, numa espécie de premonitório requiem por uma união política incompleta. Este pessimismo crónico dos velhos do Restelo também contamina vários eurodeputados nos extremos partidários da equação, nada de novo aí, mas também nalguns mais moderados, incapazes de ver que a vida não é só velocidade, embora também o seja. Confrontados com a invasão russa da Ucrânia, a UE forçou a sua entrada nas negociações e é o maior aliado de Zelensky, falhando, no entanto, na abertura de canais de comunicação com Putin — que acabarão por impor-se, já que a Europa vai até aos Montes Urais. O próprio Putin, logo que a muleta americana se partir — e irá partir-se — terá de reaproximar-se dos europeus. É importante lembrar que o autocrata russo, em tempos idos, até já quis fazer parte da NATO, logo deixemos o tempo passar. Enquanto o pau vai e vem, a UE tomará decisões difíceis para criar o tal bloco a duas velocidades: os países política e economicamente realmente integrados e os que querem ficar quase orgulhosamente sós. Ora bem, Portugal será confrontado com escolhas difíceis, políticas, económicas e empresariais para se juntar ao primeiro grupo. Para que daqui dez anos tenhamos uma defesa comum, também teremos de ter campeões europeus nos principais setores de atividade para que compitam com americanos e chineses. O que significa um período de muitas fusões e aquisições transnacionais e, pelo caminho, a criação de um 28º regulador que suplantará os 27 regionais. Não será tudo de supetão, mas é o único caminho para manter a Europa como referência global. É por isso que o debate sobre a refinaria de Sines tem de ser tido: sim, a Galp fez muito bem em juntar-se a Moeve, é este tipo de escala a que me refiro, a única que garante a sobrevivência, mas terá de proteger a única refinaria nacional — Espanha tem oito. O ministro da Economia percebeu o que Luís Montenegro não captou e está a negociar uma terceira via. Sim, Portugal perderá muitas empresas, que passarão a ser europeias, mas tem de escolher onde fixar a sua zona de recuo.


