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Quanto vale a bravura de um touro?

Criar um touro bravo é uma espécie de laboratório ao ar livre. Durante quatro anos, os ganadeiros observam o temperamento, a morfologia e a forma como reage. Os mais aptos são escolhidos para a reprodução ou entrar em praça. É o chamado “aluguer da bravura”, que pode valer cinco mil euros por animal.
30 Janeiro 2026, 07h26

É lutador, ágil e pesa mais de 500 quilos. Pelos pastos pintados de verde da ganadaria Dr. António Silva, no concelho de Coruche, espalham-se centenas de bovinos que crescem entre o silêncio do campo e o trabalho atento de quem os cria. Cada animal tem temperamento próprio, mas há traços comuns, essenciais para a tradição tauromáquica portuguesa. “O touro bravo é um animal único na natureza, com características ímpares, podendo a sua bravura e nobreza ser observadas na arena. Quando o animal entra em praça vem para lutar e o animal que é bravo demonstra uma entrega total durante a lide. Nesse momento, sentimos que estamos no bom caminho. É o reconhecimento de todo o trabalho e dedicação de vários anos”, diz Sofia Silva Lapa, 28 anos, e que representa a quarta geração da família ligada à ganadaria Dr. António Silva, ao Jornal Económico.

O processo de criação e seleção dos touros começa ainda antes do animal nascer, numa das mais importantes faenas camperas (tarefas executadas nas ganadarias) realizadas, a tenta. Uma operação em que as fêmeas, com dois a três anos de idade, denominadas de novilhas, são toureadas a pé de muleta por toureiros portugueses e espanhóis que se deslocam às herdades dos ganadeiros. Na tenta, é avaliado o comportamento, a sua bravura e a forma como investe, e a morfologia das novilhas. Uma avaliação satisfatória resulta na sua aprovação como reprodutora.

A nível de reprodutores, atualmente, a ganadaria Dr. António Silva tem cerca de 60 a 70 vacas de ventre (as mães), que por ano têm cerca de 50 bezerros, e oito sementais (os pais). As fêmeas e machos que aguardam a sua lide, momento da sua avaliação para reprodutores, são 177. Este ano, a ganadaria tem 16 touros cujo destino é a lide em praça e os restantes machos terão o mesmo destino, mas apenas quando atingem os quatro anos de idade. Os touros são selecionados para as diferentes praças e festejos populares do país tendo em conta a sua morfologia – o porte do animal e a “cara do touro” (grossura, longitude e orientação da córnea). Relativamente ao seu comportamento, este é “uma carta fechada”, uma vez que apenas no momento da lide será possível avaliá-lo.

De acordo com a Associação Portuguesa de Criadores de Toiros de Lide, o total de animais de Raça Brava de Lide em Portugal é de 12.460 divididos por 75 ganadarias. Os machos são 4.219 e as fêmeas 8.241. Em 2025, foram exportados 482 exemplares para Espanha e França, o que terá rendido três milhões de euros às ganadarias portuguesas. Ao nível de espetáculos, realizaram-se 137 corridas, 14 festivais, seis novilhadas e quatro variedades taurinas.

Este é um negócio que é feito mais com o coração do que com a razão. “Em muitos casos, esta atividade é uma tradição familiar que une o trabalho e a paixão de várias gerações de uma família, tornando-se mesmo uma característica familiar que muito nos orgulha. Estou certa de que o ganadeiro, e aqueles que com ele trabalham diariamente na ganadaria, são as pessoas que mais se dedicam e valor sentimental atribuem a esta espécie, e que dela e dos seus ecossistemas são protetores há alguns séculos. O ganadeiro admira e respeita esta espécie, constituindo a bravura do animal uma característica de elevada nobreza, enaltecida nos festejos populares, que permitem testá-la”, explica a ganadeira Sofia Silva Lapa, licenciada em Economia e com um Mestrado em Finanças e Gestão pela Universidade Católica.

Pedro Canas Vigoreaux, que fundou a ganadaria Canas Vigoreaux em 1992, partilha da mesma opinião. Com 450 animais de raça brava (40 deles colocados nas maiores praças portuguesas e espanholas) diz que o negócio é “pouco rentável”. “As ganadarias constituem a preservação natural do ecossistema e são parte da cultura e tradição em Portugal”, diz. Até chegarem às touradas, aos quatro anos de idade, o custo médio de um touro é de dois mil euros. E um ganadeiro português tem três fontes de rendimento na cria do toiro bravo. A sua venda para praça (o aluguer da bravura ao empresário que organiza o espetáculo), vale entre 3500 euros a cinco mil euros, um valor que pode aumentar se for vendido para Espanha ou França. A genética do animal e o prestígio da ganadaria influenciam no preço final.

Já o preço da carne para consumo depois de abatido, de acordo com fontes ouvidas pelo Jornal Económico, varia entre os 600 e os 1400 euros (é considerada de qualidade inferior, apesar de existirem alguns pratos de nicho como a “cola de toro bravo”, um prato premium em Espanha. A isto soma-se o subsídio de vaca aleitante (98 euros por vaca reprodutora que foi mãe nos últimos 24 meses) ou de raça autóctone (160 euros por reprodutor que teve descendência nos últimos 18 meses). Já os custos de uma ganadaria incluem a alimentação de todos os animais, mão-de-obra, custos veterinários, veículos e infraestruturas. Além disso, são animais que lutam bastante entre eles, acabando por morrer ou ficarem com lesões que os impede de participarem em touradas. “Estes custos são elevados e esta atividade certamente representa prejuízo para maior parte dos ganadeiros portugueses, sendo que para colmatar o défice, alguns, poucos, se apoiam no turismo taurino). A rentabilidade económica é uma tarefa árdua, ainda mais quando tido em conta o custo de oportunidade”, explica Sofia Silva Lapa.

Esta atividade tem grande importância para muitas comunidades, sobretudo em áreas rurais. Além de contribuir para a economia, ela está ligada a práticas antigas e a saberes passados de geração em geração, formando uma tradição com grande valor cultural. “A tradição ganadeira está na nossa família há muitos anos. Do lado da minha mãe e do meu pai. Do lado da minha mãe, o meu tetravô António Patrício Correia Gomes foi o primeiro ganadeiro desta parte da família, ainda com toiros de casta portuguesa, no início de 1800, nas mesmas terras onde ainda hoje pasta a ganadaria que depois fundou o meu bisavô, Dr. António Henriques da Silva, em 1928. Do lado do meu pai, o meu bisavô António Lapa tinha uma ganadaria com o seu nome, e foi dos primeiros ganadeiros portugueses a substituir o seu efetivo de casta portuguesa por uma casta originária de Espanha no início do século XX, através da ganadaria Alves do Rio. Em 1892, foi também sócio fundador do Real Clube Tauromáquico de Lisboa, a associação mais antiga do mundo ligada à tauromaquia”, conta Sofia Silva Lapa.

No entanto, nem toda esta herança está garantida. Para Sofia Silva Lapa, existem fatores que podem colocar em risco a continuidade da criação do toiro bravo e da própria tradição ganadeira, num tempo em que o campo é cada vez menos conhecido por quem vive na cidade. “O afastamento e desconhecimento crescente da sociedade do campo e das coisas que o envolvem, bem como a personificação dos animais, constituem, a meu ver, uma ameaça à preservação desta espécie. Gostava também de realçar que, ao revés, o campo não representa um afastamento da cidade, da cultura e da educação. A tauromaquia e a criação de toiros estão muitas vezes associadas a pessoas cultas, informadas e com formação académica elevada, apesar de, por vezes, se tentar passar a imagem contrária”, diz. Entre pastos e arenas, a tradição ganadeira continua a resistir em Portugal.


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