O ano de 2026 será marcado por um contexto particularmente exigente, tanto a nível global como nacional, em que a indústria automóvel terá de gerir, em simultâneo, múltiplos riscos e desafios — muitos deles inéditos pela sua intensidade e pela forma como convergem.
O processo de eletrificação continuará a ser um eixo central da transformação do setor, mas cada vez mais sujeito a ajustamentos. A transição energética é irreversível; contudo, o ritmo imposto nos últimos anos revelou-se excessivamente ambicioso face à realidade industrial, económica e social. A própria União Europeia começou a reconhecer esse desfasamento, introduzindo maior flexibilidade nas metas e confirmando que a transição não se faz por decreto, mas por adesão efetiva do mercado.
Em paralelo, a pressão competitiva da China afirma-se como um dos maiores desafios estratégicos da indústria automóvel europeia. A China domina uma parte significativa da cadeia de valor das baterias, dispõe de acesso privilegiado a matérias-primas críticas e opera com custos de produção substancialmente inferiores. Os construtores chineses estão a entrar no mercado europeu com veículos tecnologicamente avançados e preços altamente competitivos, num momento em que os fabricantes europeus enfrentam custos elevados, forte pressão regulatória e margens cada vez mais reduzidas.
Este contexto coloca sob forte tensão a indústria automóvel europeia, ainda hoje a maior indústria do continente, responsável por cerca de 7% do emprego e um dos principais motores de exportação e inovação. Uma transição mal calibrada, combinada com uma concorrência externa agressiva, pode fragilizar estruturalmente o setor, com impactos económicos e sociais profundos.
A tudo isto soma-se um enquadramento geoestratégico altamente imprevisível, marcado por conflitos armados, guerras económicas, políticas tarifárias, tensões comerciais e instabilidade nos mercados energéticos e de matérias-primas — factores que influenciam diretamente os custos, as cadeias de abastecimento, as decisões de investimento e a confiança dos consumidores.
Em Portugal, para além deste enquadramento global, enfrentamos desafios muito específicos. O mais crítico é a escassez grave de mão de obra qualificada, sobretudo no pós-venda automóvel. A falta de mecânicos, mecatrónicos, pintores e técnicos de colisão já provoca atrasos nas reparações, redução da capacidade de resposta das oficinas e, em alguns casos, o encerramento de empresas — não por falta de procura, mas por falta de pessoas.
Outro desafio estrutural reside no desfasamento entre a oferta de automóveis novos e a procura real dos consumidores. O aumento do preço das viaturas novas, aliado à incerteza tecnológica e às limitações práticas do veículo elétrico para muitos utilizadores, tem empurrado a procura para o mercado de usados. Este fenómeno resulta em níveis historicamente elevados de importação de viaturas usadas, frequentemente mais antigas e menos eficientes do ponto de vista ambiental e da segurança rodoviária.
Sem políticas eficazes de rejuvenescimento do parque automóvel, Portugal continuará a envelhecer a sua frota, com impactos negativos nas emissões, nos custos de manutenção e na segurança rodoviária.
Em síntese, 2026 será um verdadeiro teste à resiliência e à capacidade de adaptação da fileira automóvel. A transição continuará, mas será mais complexa, mais competitiva e menos linear do que inicialmente previsto. Os países e as empresas que conseguirem alinhar realismo, pragmatismo, visão estratégica e rapidez de adaptação às novas realidades estarão melhor preparados para enfrentar este novo ciclo.



