Neste início do novo ano de 2026, é impossível não falar da “operação policial especial” que levou à captura de Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos. Não que sintamos por ele qualquer simpatia – muito pelo contrário. Tão pouco, por que constitua uma clara violação das regras e do direito internacional, de que os Estados Unidos deviam ser o garante fundamental. Mas porque o acontecimento é, sobretudo, uma expressão maior e concentrada das transformações económicas, sociais e políticas que o mundo global tem vindo a atravessar. E, vista numa perspetiva histórica mais imediata, não deixa de ser uma consequência, quase esperada e inevitável, de todas as dinâmicas que se desenvolveram em 2025, de que a eleição do Presidente Donald Trump para um segundo mandato é apenas um factor de catálise.
Não resistimos a invocar o nosso maior poeta: “Todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades … E afora este mudar-se cada dia, outra mudança faz de mor espanto, que não se muda já como soía”.
Duas afirmações absolutamente geniais e plenas de atualidade, não obstante os quinhentos anos que separam a época em que foram escritas do momento atual. A primeira, a de que o mundo não é estático, sofre transformações e nesta dinâmica adquire novas qualidades que se sobrepõem às anteriores. A segunda, a de que as próprias transformações não se processam da mesma forma como se processavam antes. Novas qualidades que são sistemática e generalizadamente ignoradas, particularmente por aqueles que as deviam antecipar e preparar as sociedades para com elas lidar, ajustando as instituições, as regras e os mecanismos de relacionamento internacional.
A captura do Presidente da Venezuela, é uma manifestação superior da mudança qualitativa sistémica do mundo global em que vivíamos até aqui. É a expressão concreta do desmoronar do sistema de princípios, de regras e de instituições que regularam as relações internacionais desde o final da segunda guerra mundial. E, no imediato, não obstante a demonstração de força e eficácia da potência hegemónica – que, talvez, tenha sido a intenção fundamental –, é a legitimação, a posteriori, da “operação militar especial” da Rússia. E não deixa de incentivar, em lugar de dissuadir, a vontade da China de reintegrar Taiwan.
Nesta hecatombe do sistema global de governance das relações internacionais, a Europa está claramente perdida. Não obstante a vontade da nova “tríade” – França, Alemanha e Reino Unido – de se chegar à frente, evidenciando com isso a falência da União Europeia enquanto ator global.
A Europa necessita de pensar diferente, de reencontrar-se com o seu projeto inicial. De pensar um novo sistema de referências para a sua intervenção estratégica, de assumir plenamente a sua senioridade e independência na definição do novo mundo global. E de recuperar a sua identidade cultural de raiz greco-latina e universal.
E Portugal não pode limitar-se a olhar para os fundos que já não virão como vinham antes. Mas deve contribuir como produtor de uma nova identidade europeia que se apresente ao mundo com orgulho do que faz no presente e não com vergonha do que fez no passado. Uma nova identidade que se afirme como líder de um projeto estratégico global de recuperação do papel das instituições internacionais e que privilegie a cooperação e a afirmação de regras, em lugar da promoção de rivalidades e de confrontação.
Bom 2026!



