O mundo está em desassossego. Multiplicam-se as mudanças e os desafios que abalam as referências com que aprendemos a compreendê-lo. A inquietude que se sente é mais estrutural do que conjuntural. No seu “Livro do Desassossego, Pessoa fala da ausência de sentido e da dificuldade de encontrar ordem no caos interior. Hoje, essa perturbação deixou de ser apenas pessoal: tornou-se coletiva. O desassossego de um homem transformou-se no estado de espírito de uma era. Vivemos, como defende Adam Tooze, num mundo de policrises?

O politólogo Ian Bremmer descreve este tempo como o da G-Zero. Por oposição ao G7 ou ao G20, estamos perante um mundo sem liderança global, em que as instituições supranacionais se esvaziaram. EUA, China e UE não coordenam, mas antes perseguem interesses próprios. A cooperação cedeu ao cálculo e a incerteza passou a ser estrutural. O resultado é maior volatilidade geopolítica e risco de respostas fragmentadas às crises.

Strauss e Howe trazem uma outra lente: a do ritmo social e das gerações. Na sua teoria geracional, conhecida pelo seu livro “The Fourth Turning, descrevem ciclos de cerca de 80–90 anos compostos por quatro “turnings”. Segundo eles, períodos de crise (o quarto “turning”) são recorrentes e precedem profundas reconstruções das instituições e da sociedade. Aplicada ao presente, a sua leitura sugere que estamos no fim de um ciclo que poderá culminar numa reconfiguração sistémica.

Martin Armstrong, um controverso analista de fluxos de capital em mercados internacionais, aborda o problema pela via económica e da confiança: o seu Economic Confidence Model identifica ciclos regulares de sentimento económico (intervalos de 8,6 anos e seus múltiplos) que geram pontos de viragem macroeconómicos e financeiros. Armstrong argumenta que crises de confiança podem precipitar mudanças duradouras nas regras do jogo económico e político.

O mais notável é que, partindo de perspetivas distintas – a política, a sociológica e a económica –, estes autores apontam para o início da próxima década (aproximadamente 2030–2033) como um possível clímax de um processo de profundas mudanças. Um período que poderá reescrever regras, redefinir alianças e forçar a revisão dos paradigmas com que o mundo se organizou nas últimas décadas.

Saber isto não nos diz o desfecho. Obriga-nos, porém, a preparar-nos.