António Poças: “30% do PIB da região de Leiria resulta de exportações”

A região de Leiria tem no ADN a indústria e a transformação tecnológica. Moldes, vidro e construção civil são indústrias de peso, mas os serviços marcados pela digitalização começam a ganhar terreno.

As exportações dos distritos de Leiria correspondem a cerca de 30% do PIB da região, afirma António Poças, o presidente da NERLEI – Associação Empresarial da Região de Leiria. Os setores que mais exportam são o comércio por grosso e a retalho com 37% daquele volume, seguindo-se as indústrias transformadoras com um peso de 34%. De realçar que as exportações da região duplicaram anos últimos 10 anos.

A situação alterou-se com a pandemia e Jorge Santos, ex-presidente da NERLEI e atual administrador executivo do Gabinete de Apoio Económico e Social de Leiria diz que dados finais do 1º semestre não existem, mas “os mais significativos foram o aumento do desemprego em abril e maio”. Diz que “houve um retração importante no PIB e no volume de emprego”, não sabendo ainda a sua extensão. Adiantou que “para já não se verificou ainda um impacto no número de empresas”. Jorge Santos assume que “em geral, a atividade económica está gravemente afetada com um grande nível de incerteza quanto à recuperação. O impacto tem sido assimétrico nas empresas dos diferentes setores e também dentro dos mesmos setores. Se excetuarmos as empresas ligados a alguns dos sectores (ex: alimentar, da saúde e da construção), em regra, todos os outros registaram quebras na atividade”, e dá o exemplo de algumas situações ilustram as assimetrias. Frisa que “o turismo reduziu rapidamente a atividade e não se vislumbra uma recuperação a curto prazo. A restauração e o comércio não alimentar reabriu em julho mas com a atividade longe do que é necessário para sustentar os negócios. Empresas industriais de produção de bens não ligados à saúde e alimentar registaram uma quebra abrupta em abril com uma recuperação crescente, com o mês de julho já próximo do homólogo de 2019. Empresas industriais de bens de equipamento com ciclos de produção mais longos terminaram a suas encomendas e não conseguiram angariar novas encomendas suficientes para manter a atividade a níveis aceitáveis no 2º semestre. Na área dos serviços o impacto está a ser importante sobretudo para aquelas cuja atividade dependa do investimento em bens e serviços. O tecido empresarial da região de Leiria nas diversas crises sempre demonstrou a sua resiliência e uma capacidade de recuperação extraordinária. Apesar de ainda nos encontrarmos em plena crise temos já algumas evidências que nos permitem pensar que mais uma vez iremos ter uma recuperação mais rápida do que a média da economia portuguesa”. Por seu lado o presidente da NERLEI frisa que não se pode esquecer a fileira automóvel “que foi uma das mais prejudicadas”.

Soluções
A cultura digital “começa a existir em praticamente todas as áreas de negócio, desde a agricultura à indústria, até ao comércio e serviços”, diz António Poças. Reforça que a cultura digital é potenciada pelo nascimento de “muitas e boas empresas novas”.

O presidente da NERLEI frisa “que o ambiente e a sustentabilidade são temáticas que estão já incorporadas em todas as atividades económicas, apesar de sabermos que temos ainda um longo caminho para percorrer. Na nossa região, e fruto da atividade do Grupo de Trabalho da Economia Circular que falamos acima, vamos tendo conhecimento de trabalho muito promissor a esse nível em sectores muitos diversos que vão da indústria, ao sector primário (agricultura, floresta e produção animal). A indústria de plásticos, um dos sectores industriais com forte peso na economia regional, tem tido nesta área um excelente trabalho, de adaptação da atividade às exigências ambientais legais e também dos consumidores”. Frisa que a digitalização e a sustentabilidade da economia são duas ideias fundamentais que já estão a instalar-se no negócio do futuro. O Grupo de Trabalho da Economia Circular, criado em finais de 2018, tem como principal objetivo identificar os constrangimentos, desafios e oportunidades das empresas da região e a este nível”.

Mas a região fez mais e criou um grupo de trabalho no âmbito da associação empresarial de Leiria, a NERLEI, e do Politécnico de Leiria. Gonçalo Lopes, presidente da Câmara Municipal de Leiria diz que o município “vai transformar o topo norte do Estádio Municipal de Leiria num Centro de Negócios, de forma a dotá-lo das infraestruturas que o tornem atrativo ao investimento na área das novas tecnologias, um espaço que passará ainda a acolher um Centro Associativo e de Artes. O Centro de Negócios de Leiria terá instalações de última geração em termos técnicos, tecnológicos e de segurança do edifício, que se torna moderno e inteligente, para a instalação de empresas de matriz tecnológica. Este projeto terá um impacto estrutural no futuro do concelho, com a criação de um ecossistema tecnológico, que capitalizará as empresas já instaladas e tornará este território cada vez mais atrativo para a instalação de empresas de base tecnológica”. Diz ainda o presidente da edilidade que se pretendem “criar condições para reter e atrair talentos, invertendo a tendência de perda de população a que se assistiu nos últimos anos. O modelo desenhado para esta parte do estádio recebeu contributos de entidades externas, como o Instituto Politécnico de Leiria, a NERLEI e o grupo TICE.Leiria, e diversas entidades associativas, quer da área da cultura quer da área do desporto, no caso do Centro Associativo, que se envolveram na definição de uma estratégia para o nosso futuro comum. Com este investimento, pretende-se que Leiria seja uma cidade de negócios, empreendedorismo, inovação e cultura, aberta a empresas e talento de todas as proveniências. Para que tal seja atingido, tem de haver uma envolvente favorável ao investimento, sendo que um desses fatores passa pela inovação e pela existência de infraestruturas e equipamentos que a potenciem”.

Questionado sobre como gostaria de ver a região em termos económicos, António Poças frisou que se hoje “é muito diversificada em termos setoriais, composta essencialmente por PME e bastante exportadora, dentro de 10 anos gostaríamos que fosse mais circular, descarbonizada e digital. E também com empresas de maior dimensão e escala, bem mais capitalizadas e exportadoras de produtos de maior valor acrescentado”. Adianta que a falta de uma ferrovia eficiente “é um problema grave”. A Linha do Oeste está obsoleta e desajustada da realidade. Defende a abertura da Base Aérea de Monte Real ao tráfego civil, enquanto faltam valências no centro hospitalar, para além de existirem outras necessidades de investimento na área da saúde na região que não passam pelo hospital. O GES Região de Leiria ou Gabinete Económico e Social da Região de Leiria desenvolveu, com o contributo de 11 grupos de trabalho, um plano económico e social para a região que agora está a ser trabalhado no sentido de garantir esse aproveitamento, “posicionando a região de Leiria para a apresentação de projetos potenciadores de desenvolvimento regional”, afirma o presidente da NERLEI.

E sobre o futuro imediato e o receio de uma segunda vaga da pandemia, Jorge Santos, do Gabinete de Apoio Económico, diz que “no período em que vivemos, até já, aprendemos a viver com o vírus sem que seja necessário parar as atividades. A grande incerteza é o impacto e a forma como irão reagir as economias dos países dos nossos clientes, para onde enviamos os nossos produtos e serviços”.

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