A espera

Falar em recessão é um cenário que parece exagerado, sobretudo pela resiliência da procura privada, como sequência de um mercado de trabalho mais robusto, capaz de gerar consumo.

A política monetária europeia tem sido marcada por um conjunto de falsas partidas rumo à normalização monetária, e em 2018 parecia que havia novamente indícios fortes de que aquela seria inevitável. Mas a conjuntura mudou e, neste momento, a zona euro encontra-se de novo no ponto próximo de partida, naquela que continua a ser uma longa e árdua caminhada pelo deserto em busca de crescimento, e sobretudo de inflação. A espera pela normalização poderá agora durar na Europa pelo menos até ao final do ano, com a maior parte dos observadores a considerar que, mesmo em 2020, a subida das taxas não será fator garantido. Quais os fatores por detrás desta prolongada espera? E quem roubou a impetuosidade da recuperação europeia?

Conjuntura internacional e braço de ferro EUA-China condicionaram o comércio internacional

Afinal o que está por detrás desta alteração algo inesperada, e em tão pouco tempo? Em primeiro lugar, importa relembrar que faz 12 meses que a atividade económica  estava a acelerar de forma quase sincronizada em todas as regiões do globo. Em pouco tempo alguns fatores levaram a uma reavaliação da conjuntura. Desde logo a escalada das tensões entre Estados Unidos e China, mas onde não faltaram os tradicionais dilemas europeus como o braço de ferro orçamental entre Itália e Bruxelas (que não evitou a entrada da economia transalpina em recessão), ou as incontáveis greves na França, que praticamente geraram uma estagnação nas reformas estruturais que estavam a ser implementadas, e até o processo de saída do Reino Unido foi indutor de menor actividade, adiando decisões de investimento entre blocos económicos.

Por fim, quer as questões relacionadas com maior regulação no setor automóvel internacional (sobretudo no diesel), eventual agravamento da tributação internacional, e menor ímpeto do mercado chinês tiveram o seu impacte sobre a indústria autómovel europeia, sobretudo no que diz respeito aos produtores europeus.

A economia sofreu de fatores casuísticos… mas que não explicam tudo

O abrandamento económico tem vindo a ser evidente em algumas economias da zona euro, sobretudo naquela que é o seu principal principal motor, a Alemanha. Existem fatores que têm contribuído para uma maior moderação das expectativas de crescimento – com alguns dos factores serem de facto casuísticos (como as situações relacionadas com um inverno mais impetuoso, ou contingências relacionadas com greves e capacidade de produção, por exemplo no setor automóvel) – mas, na essência, deverão estar fatores mais relacionados com o agravamento do clima de comércio internacional, nomeadamente as tensões comerciais entre Estados Unidos e China, e também derivado do abrandamento deste gigante asiático.

O Banco Central Europeu (BCE) já voltou a reiterar a manutenção de taxas de juro bastante reduzidas durante o resto do ano, como resposta a algumas leituras do princípio do ano que dão conta de um cenário económico mais moderado que o antecipado inicialmente.

Época de decisões e os “nós górdios políticos” europeus

Os próximos meses continuarão a trazer ao de cima a digestão de dilemas políticos que se arrastam e podem continuar a condicionar o comportamento da economia europeia. À partida teremos as eleições europeias como momento definidor do peso atual do euroceticismo, que poderá depois ser transposto para a agenda de prioridades dos principais países da União Europeia. Ou seja, com a tendência de perca de peso do centro político, tradicionalmente globalista e pró-europeu, o debate sobre as reformas estruturais na zona euro – onde se adivinham também tensões relacionadas entre interesses da Europa periférica e Europa do centro do euro – poderá ganhar outra dimensão, proporcional ao peso que virão a ter as forças políticas mais eurocéticas.

Até agora, a agenda de uma União Europeia mais integrada e reformada tem prevalecido sobre os receios de uma desintegração do projeto europeu e, para isso, muito tem contribuído a capacidade do BCE em manter o sistema financeiro estabilizado. Adicionalmente, os passos que foram dados no sentido de construir uma União Bancária e assegurar uma espécie de colete à prova de bala em torno da moeda única, apesar de não estarem completos, deram um sinal muito favorável aos mercados financeiros acerca do que é o guidance futuro. Progressos que estarão em cheque, numa altura em que existe uma fragmentação elevada do sistema político, e onde o centro político europeísta pode até perder capacidade para liderar um consenso de maior integração europeia.

Espanha vai a votos já e Itália continua a ser um risco para o euro

Ainda antes das eleições europeias, Espanha irá a votos no dia  28 de Abril e apesar das sondagens darem como vencedor o PSOE, de centro-esquerda, dificilmente não integrará partidos com matriz eurocética. O desenlace das eleições europeias pode também ter implicações de relevo em alguns dos países do euro como é o caso da Itália que tem um governo suportado por uma maioria eurocética e onde um mau resultado destes partidos pode desencadear eleições antecipadas, mas onde um bom resultado dos eurocéticos pode conferir força para um braço de ferro com a Comissão Europeia em 2020, colocando desafios elevados em termos de matéria orçamental e atrasando reformas estruturais de relevo.

No limite, e num momento em que o país se encontra fragilizado economicamente, pode haver a tentação de colocar, de novo, em cima da mesa a retórica anti União Europeia, sobretudo se o atual governo quiser utilizar medidas que quebrem os compromissos fiscais com Bruxelas, no sentido de conquistar maior popularidade.

Brexit adiado… para sempre?

Por fim, o processo de saída do Reino Unido da zona euro permanece igual ao que estava… sem acordo e adiado. Durante muito tempo falou-se em diversos cenários relacionados com as probabilidades do Reino Unido sair de forma ordenada (soft), ou desordenada (hard), ou até de ser revertido através de uma repetição do referendo (Briback). Afinal, verificou-se uma imensa confusão política relativamente ao processo de saída da União Europeia – e resta ainda saber se haverá, de facto, capacidade para se materializar algum tipo de acordo. Pelo menos até setembro, os ingleses continuarão a fazer parte da União Europeia até ao final de outubro, embora fiquem de fora das eleições para o Parlamento Europeu.

Nem tudo é mau, e recessão parece ser cenário exagerado

De facto a conjuntura  económica deverá ser mais frágil durante o primeiro semestre, na Europa. Estas condicionantes, agregadas a uma expectativa de redefinição dos equilíbrios geopolíticos ao nível da política interna dos países do euro, podem alterar consensos tradicionais em torno da necessidade de criar mais reformas na Europa. Adicionalmente, mais protecionismo a nível global, sobretudo no que diz respeito a setores em que a Europa se encontra mais exposta – como o setor automóvel – só condicionarão mais a procura externa, o que terá o seu devido impacte no crescimento. A recessão, contudo, é um cenário que parece exagerado, sobretudo pela resiliência da procura privada, como sequência de um mercado de trabalho mais robusto, capaz de gerar consumo. Neste equilíbrio existirá também um clima fiscal mais amigável, que poderá estimular a recuperação do investimento durante o próximo ano.

Bottoms’ up: de novo o Banco Central

No final, e acima de tudo, o papel do BCE voltará a ser fundamental nesta nova fase de espera por melhores condições e mais inflação. As economias desenvolvidas estiveram durante muitos meses a alimentar uma narrativa mais expansiva em termos de custos de financiamento, que acabou por ter um impacto adicional nas estimativas económicas de crescimento já na segunda metade do ano passado e no principio de 2019. O BCE veio entretanto alterar o discurso, e voltou a ligar a máquina dos estímulos ao proceder ao prolongamento do programa de recompra de ativos (LTRO), para além das promessas de manutenção de taxas de juro reduzidas.

A retoma na Europa está por isso novamente adiada, mas talvez não esteja condenada. O mundo desenvolvido ainda apresenta alguns dados importantes e resilientes, sinalizando que a expansão económica pode continuar nos próximos trimestres, especialmente agora que também na China as medidas de incentivo fiscal deverão começar a ter tração no terreno. Por fim, há leituras que dão conta de alguma resiliência da procura privada, em virtude de um mercado de trabalho mais robusto, capaz de gerar consumo. Ainda assim, os investidores terão de lidar com as condicionantes geopolíticas, que deverão incorporar nas suas expectativas.

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