5G só depois de superada emergência nacional

Operadoras mantêm estratégias, mas agora o foco é o garante das comunicações. Aguardam por “clarividência no futuro” e pedem “maturidade” na reflexão do 5G

As empresas de telecomunicações mantêm para já as estratégias pensadas para este ano, enquanto esperam por uma estabilização do momento que Portugal atravessa para avançar para as metas delineadas. A quinta geração da rede móvel (5G) em Portugal é um dos marcos dessas estratégias e continuará a ser uma prioridade para Altice, NOS e Vodafone, mas o atual cenário de emergência relegou, temporariamente, o tema para um plano secundário. Hoje, a prioridade para as operadoras é assegurar as comunicações em todo o país, sem constrangimentos, sobretudo nas funções críticas do Estado.

“Não podemos estar distraídos com outros processos paralelos – e porque não sabemos a duração e a profundidade desta crise –, é de bom tom ter aqui um compasso de espera”, disse o presidente da Altice Portugal, Alexandre Fonseca, numa conference call com jornalistas, na quarta-feira, sobre as contas de 2019 da operadora. O gestor explicou que é preciso aguardar até haver “maior clarividência sobre o futuro”, para se perceber o que poderá acontecer.

Contactada, fonte oficial da Vodafone Portugal disse que questões relacionadas com a estratégia da empresa e o dossiê do 5G só poderão ser respondidas quando a situação no país “acalmar”. Por ora, o foco está na “gestão da rede e do tráfego” nos serviços da operadora. O JE obteve resposta idêntica de fonte oficial da NOS: “Manter o país ligado e a comunicar é a nossa prioridade”.
Em suma, Altice, NOS e Vodafone mantêm postura idêntica. Ou seja, o setor está em sintonia na atual situação de emergência, remetendo outros planos para um momento mais oportuno.

Uma fonte de mercado auscultada pelo JE explicou que as metas relativas ao 5G não estarão perdidas se o clima de emergência passar e a situação estabilizar, porque para a nova vaga móvel ser implementada “é preciso haver uma situação de normalidade”.
O panorama do 5G é particularmente relevante, tendo em conta que em plena época de apresentação de contas e de perspetivas para 2020 (das três principais operadoras só falta conhecer as contas de 2019 da Vodafone, que serão apresentadas em maio), tem sido revelado que parte dos investimentos em 2019 foram feitos a pensar também na chegada do 5G em 2020.

5G em 2020 ainda é possível?
Para o CEO da Altice Portugal a questão do 5G em Portugal torna-se agora mais complexa: “Na segunda metade deste ano poderemos começar a sentir alguma normalidade. Mas se o processo for retomado na segunda metade do ano, não me parece viável que haja serviços 5G em Portugal em 2020”, afirmou o CEO da dona da Meo.

O gestor acredita que a operadora está preparada para o 5G. Mas ainda que o processo de implementação da nova tecnologia seja retomado, o tempo que medeia entre terminar o processo de consulta pública, posterior leilão e iniciar a atribuição das licenças levanta dúvidas a Alexandre Fonseca. “Tudo isto em seis meses, incluindo os meses de verão, depois de um processo que se arrasta em Portugal há quase dois anos, parece-me muito complicado”, afirmou.

“Quando estamos perante cenários de incerteza como é aquele que atravessamos, obviamente que estes não são os melhores momentos para fazer investimentos significativos, ou disrupções das quais não sabemos o que vai acontecer”, acrescentou.

Para a NOS, processos como o 5G “têm de ser geridos com a tranquilidade e a maturidade que o contexto obriga”.

Tudo indicava que o ano de 2020 seria o ano da implementação da quinta geração da rede móvel em Portugal. Em fevereiro iniciou-se a libertação da faixa dos 700 MHZ (ocupada pela TDT) para dar lugar à nova tecnologia móvel, a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) lançara o processo de consulta pública, e o leilão do 5G deveria ter início no próximo mês de abril. Mas a forma como o surto epidemiológico do novo coronavírus (Covid-19) atingiu Portugal, levando o Governo a declarar o estado de emergência, paralisou todo o processo.

O processo de consulta pública está suspenso até dia 1 de abril, por decreto. Mas a mesma fonte do mercado explicou ao JE que esse prazo será muito curto, uma vez que todo o processo do 5G é exigente. As operadoras terão sempre de alocar várias equipas, de várias áreas, para preparar devidamente a análise ao mercado, aos procedimentos do leilão e o posterior lançamento de serviços. Face ao atual momento, e com o regime de teletrabalho temporariamente instituído, as operadoras não deverão alocar, por agora, equipas para trabalhar no desenvolvimento do 5G.

Impactos? Consumos disparam
Questionadas, nenhuma das três operadoras revelou qual poderá ser o impacto que o clima de emergência nacional poderá provocar nas contas de cada uma. Sobre o impacto nos consumos, as operadoras procuram dar provas da resiliência das suas redes, tendo a Vodafone, Altice e NOS revelado, durante a semana, dados sobre as evoluções verificadas na utilização das suas redes na semana de 16 a 22 de março, comparativamente com a semana anterior, de 9 a 15 de março. A Vodafone registou um aumento de 67% no tráfego de rede fixa (internet residencial), bem como de 8% nos dados móveis. Já o recurso a chamadas pelo telemóvel cresceu 41% e o consumo de TV não linear subiu 11%, enquanto o consumo em plataformas como a Netflix disparou 25%.

Fonte oficial da telecom garantiu que tem conseguido responder “positivamente” ao aumento de tráfego, sem ter “ainda necessidade de fazer qualquer alteração na gestão da rede e do tráfego”.

No caso da NOS, o tráfego da internet em casa disparou 70% e o consumo de dados móveis aumentou 45%. Já a utilização de chamadas por telefone fixo disparou 133%, enquanto a utilização de chamadas pelo telemóvel subiu 41%. O consumo em televisão não linear cresceu 13%.

“É importante salientar que a maior parte dos clientes da NOS subscreve planos cuja fatura não será impactada pelo aumento de consumos. Adicionalmente, a NOS tem já implementado um conjunto de mecanismos, para garantir que os seus clientes não são sobrecarregados com custos adicionais relevantes”, explicou fonte oficial da operadora liderada por Miguel Almeida.

Já a dona da Meo viu o tráfego na rede fixa crescer 35%, enquanto o tráfego móvel aumentou 10%. A utilização de voz móvel subiu 30% e em chamadas com telefones fixos disparou 80%. Os serviços over-the-top, como a Netflix, cresceram cerca de 45%, e o consumo de videoclube aumentou entre 75% a 85%.

Devido ao disparo no consumo dos serviços das operadoras, o Governo decretou que NOS, Altice e Vodafone têm ‘luz verde’ para limitar ou bloquear serviços como Netflix, restringir funcionalidades de televisão não linear (repetições, gravações, avançar ou retroceder na programação), e limitar donwloads e videojogos online, para salvaguardar a funcionalidade dos serviços considerados críticos pelo Estado e as comunicações essenciais entre os residentes do país.

Tratando-se de “medidas excecionais”, NOS e Vodafone lembraram que o decreto é para situações extremas e que, até ao momento, não foi necessário bloquear ou suprimir acessos a serviços. Já a Altice fez saber que não há indícios de que algum serviço venha a ser bloqueado ou limitado, em breve.

Artigo publicado no Jornal Económico de 27-03-2020 Para ler a versão completa, aceda aqui ao JE Leitor

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