871 mil milhões de euros. Portugal é o terceiro país da UE que deu mais moratórias

A Autoridade Bancária Europeia alertou para o “inevitável” aumento do malparado na Europa por causa da Covid-19. Banca portuguesa terá de saber lidar com o problema em momentos diferentes porque a maturidade do crédito abrangido por moratórias tem maturidades distintas.

Cristina Bernardo

A Autoridade Bancária Europeia (da sigla inglesa, EBA) alertou para o aumento de incumprimento do crédito no fim das moratórias concedidas pela banca europeia e que abrangeu contratos de crédito no valor 871 mil milhões de euros, até junho de 2020.

A banca portuguesa figura entre os sistemas bancários que mais moratórias concedeu. Cerca de 20% do stock de crédito total da banca nacional foi alvo de moratórias, apenas pela Hungria e o Chipre, num volume que ficou pouco aquém dos 50 mil milhões de euros, ocupando também neste critério uma dos posições cimeiras do ranking europeu: o quinto lugar.

No relatório, que analisa as moratórias e as linhas de crédito com garantias públicas concedidas enquanto medidas de mitigação do impacto económico causado pela Covid-19, concedendo liquidez para as empresas e para as famílias, a Autoridade salienta que “a disrupção causada pela pandemia e as medidas de confinamento vão inevitavelmente provocar maiores níveis de incumprimento [do crédito] nos próximos meses”.

Este problema não vai chegar à banca nacional ao mesmo tempo. Antes, terá de lidar com ele em momentos diferentes devido à heterogeneidade da maturidade do crédito  que beneficiou das moratórias.

Cerca de 50% das moratórias concedidas em Portugal abrangeram contratos de crédito com maturidade entre seis e nove meses, enquanto 20%  abrangeram os contratos de crédito com maturidade inferior a três meses. Os contratos de crédito entre nove e 12 meses representaram pouco mais de 10% do total, enquanto o financiamento entre três a seis meses representava cerca de 20% do total.

“Apesar dos generosos pacotes de estímulos lançados pelos governos para apoiar o emprego, espera-se que o desemprego aumente no futuro. Isto vai provocar a qualidade do crédito concedido às famílias”, prossegue o documento.

Por isso, a EBA sugere que os bancos comecem o quanto antes a entrar em contacto com os seus clientes para avaliarem a situação de cada devedor e para aplicarem “políticas proativas para avaliarem corretamente o perfil do risco dos devedores” e, “quando necessário, tomarem ações apropriadas”.

“O reconhecimento atempado de exposições problemáticas e o contacto proativo com clientes já provaram ser eficazes no passado para lidar com a deterioração da qualidade dos ativos”, reconhece a EBA, frisando ainda que com elevado peso das moratórias na carteira de crédito “têm de ser extra-vigilantes” porque estão “muito vulneráveis” quando as moratórias expirarem.

A EBA concluiu que os bancos europeus concederam moratórias no valor de 871 mil milhões de euros, o que representa cerca de 6% da carteira de crédito total e cerca de 7,5% do total de crédito concedido às famílias e às empresas.

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