A Alemanha contra-ataca

Se as iniciativas alemãs tiveram o mérito de trazer a Alemanha a jogo, mostrando que não vai ser um ator passivo, não deixa de ser preocupante por revelar uma falta de sintonia entre a posição francesa e alemã.

A entrevista de Macron à Economist provocou ondas de choque no seio da NATO. As reações dos dirigentes europeus não foram unânimes. Na reunião dos ministros de negócios estrangeiros (MNE) da Aliança realizada a 20 de novembro, em Bruxelas, o ministro alemão Heiko Maas tirou o tapete à França. Antecipou-se, e propôs a constituição de um grupo de sábios liderado pelo secretário-general Jans Stoltenberg para discutir o futuro da Aliança, gorando assim o plano francês de liderar essa discussão.

Com esta medida, o MNE alemão conseguiu transportar o debate para terreno neutro, onde será mais difícil à França influenciar os acontecimentos. Estes desenvolvimentos são muito preocupantes. A união entre a França e a Alemanha existente nos dias que se seguiram à declaração do Brexit parece desvanecer-se.

Longe vai o dia 26 de junho de 2016, em que após a vitória da saída do Reino Unido da UE, França e Alemanha acordaram o “European Security Compact”, um pacote de propostas que abrangia um largo espetro de aspetos no âmbito da segurança e defesa europeia, muitos deles obstruídos no passado pelo Reino Unido.

Aumentou a perceção de um relacionamento competitivo entre os dois países em detrimento de cooperação. Muito recentemente, numa entrevista com o homólogo polaco, Heiko Maas veio dizer que “a NATO é a base de nossa segurança na Europa”, acrescentando que Berlim pretende “fortalecer a direção europeia na NATO enquanto cria uma política pan-europeia de segurança e defesa”. Se o conteúdo da primeira parte da declaração é inequívoco, o segundo é ambíguo e permite várias interpretações.

Se estas iniciativas alemãs tiveram o mérito de ocupar um espaço e trazer a Alemanha a jogo, mostrando que não vai ser um ator passivo, não deixa de ser preocupante por revelar uma falta de sintonia entre a posição francesa e alemã, cuja dimensão não sabemos ainda exatamente qual é.

A gravidade das questões levantadas por Macron obrigava necessariamente a um debate. Não podiam ser varridas para debaixo do tapete. Contudo, a utilidade desse debate dependerá dos temas escolhidos e da forma como for conduzido. Para além do relacionamento com a Rússia, são muitos os temas a merecer reflexão, envolvendo de uma ou de outra forma a Rússia (defesa antimíssil, INF, controlo de armamento, alargamento, revisitação dos acordos CFE, etc.). Mas há um que justifica por si só o debate: a sobreposição de missões da NATO e da Política Comum de Segurança e Defesa (PCSD) da UE para as suas periferias, nomeadamente as do Sul.

Os recentes desenvolvimentos ocorridos no seio da NATO para implementar um “framework for the South” e a declaração de início de atividade do “Regional Hub for the South”, em Nápoles, assim como de outras medidas, vieram aumentar de sobremaneira a intenção e a capacidade da NATO intervir na sua periferia, que é também a periferia da UE. Fica pouco claro, qual será o papel destinado à PCSD nestas regiões.

Urge que os dirigentes europeus clarifiquem o que pretendem fazer com a PCSD. Se este tema estruturante não for discutido, tememos não só pelo valor dessa reflexão como pelo futuro da PCSD. Urge desfazer este nó górdio sem abrir caixas de Pandora, embora reconheçamos que a probabilidade é elevada.

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