A ascensão do mundo digital

Uma nova economia assente em maior conectividade, desintermediação e tecnologia mais acessível vai espoletar mudanças significativas. Desde logo no que diz respeito aos hábitos de trabalho, mas também irá agravar desigualdades.

Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”, Leon Megginson

Não é propriamente novidade a forma como, nas últimas décadas, a tecnologia tem evoluído e assumido um papel relevante nas nossas rotinas diárias, no que diz respeito à forma como nos relacionamos socialmente, como acedemos à informação e comunicamos as nossas opiniões, à forma como nos agregamos em torno de causas e aderimos ao ativismo político, ou como organizamos os nossos momentos de lazer, e também na forma como a nossa vida profissional se moldou em função do ecossistema digital que tem vindo a redesenhar os diferentes sectores e indústrias.

A crise sanitária colocou em marcha um processo com várias frentes que estimularam a migração digital de uma parte substancial da população nos países afetados – sobretudo nas economias mais desenvolvidas – e espoletaram novos hábitos e comportamentos (como trabalhar a partir de casa, ou fazer as compras de supermercado online) dos quais dificilmente nos iremos libertar num ciclo pós-Covid. Estamos por isso no princípio daquela que pode ser uma era de acentuada ascensão do mundo digital, que vai inevitavelmente influenciar a forma como vivemos e que representará um desafio para governos, reguladores e instituições.

A desintermediação e o aumento da conectividade global são realidades da revolução digital em curso

Encontrar um conceito simplificado para definir o que é esta economia digital não é um exercício fácil, uma vez que abarca uma série de conceitos complexos de agregar. Podemos, contudo, encontrar padrões de comportamento que associam os diversos agentes económicos que estão essencialmente associados em duas vertentes importantes, que são a desintermediação dos canais tradicionais de comunicação ou transação, e, sobretudo, um enorme aumento da conectividade global de indivíduos e negócios.

As taxas de acesso à internet continuam a aumentar pelo mundo fora, e a maturidade da tecnologia 4G tem vindo também a permitir o acesso a equipamentos (smartphones) cada vez mais alargado.

Era esta a realidade mesmo antes da pandemia. O movimento disruptivo encontraria suporte nas alterações graduais nas preferências dos consumidores, nas dinâmicas demográficas e num permanente ciclo de inovação tecnológico, permitindo uma maturação dos custos de implementação para níveis cada vez mais abrangentes. Aliás, as estimativas de alguns observadores da área económica indiciavam que a percentagem de consumidores disponíveis para utilizar os mecanismos digitais poderia duplicar na próxima década, assentes no aumento das gerações “nativas digitais”, ou seja, que desde cedo conviveram neste ecossistema.

A Covid-19 como fator acelerador da mudança

A pandemia mudou a forma como olhávamos para a tecnologia disponível, que, num ápice, passou da curiosidade a elemento essencial do dia a dia. Basta olhar para alguns exemplos práticos das rotinas adquiridas durante o período de confinamento, como o teletrabalho ou a aquisição de bens e serviços online, e perceber que algumas destas alterações se poderão ter tornado permanentes. É certo que a interação pessoal continuará a ser relevante, mas as conclusões sobre o efeito da pandemia indiciam que este será um catalisador da aceleração na adoção das novas tendências.

Para além das alterações forçadas nos hábitos de consumo, com muitos a utilizarem a internet pela primeira vez para proceder a transações que de outra forma não poderiam fazer, também as empresas, instituições e sobretudo governos, aceleraram os seus planos na sequência da pandemia para lidarem com um mundo com mais barreiras físicas.

É natural que na estratégia de saída da crise, muitos dos planos de recuperação dos países assentem no investimento em infraestrutura digital, que permita às suas economias encetar planos de transformação do tecido empresarial que se traduzam em maior resiliência e mais potencial de criação de valor a médio prazo. Cenário esse que ficou bem evidente no comportamento em bolsa das gigantes tecnológicas norte-americanas nos últimos seis meses, que se mostraram altamente resilientes em termos operacionais e de crescimento dos lucros, quando comparadas com as restantes empresas de sectores mais tradicionais da economia.

Cerca de metade do consumo privado das economias desenvolvidas poderá ser feito online em 2030

Tendo todos estes fatores em consideração, é muito provável que o consumo privado tenha cada vez mais expressão nos canais digitais. Da mesma forma, as empresas deverão apostar mais em tecnologia e processos de automação que permitam reduzir os custos fixos, bem como criar resiliência face a futuras situações, similares à atual, em que o distanciamento social é relevante.

Também neste contexto, a maior maturação no que diz respeito ao custo dos equipamentos de automação industrial, poderá permitir o aumento em seis vezes do número atual de robôs na cadeia de produção até 2030 (segundo um estudo da Oxford Economics, “How Robots Change the World”, de 2019).

As expetativas apontam para uma forte alteração dos padrões de utilização das novas tecnologias digitais nos próximos anos. De acordo com algumas análises (HSBC, Euromonitor) dentro de uma década, metade do consumo de bens nos mercados desenvolvidos poderão ser transacionados online, num mundo onde metade da população deverá estar ligada à internet. Este é um cenário que abre portas a grandes alterações, com oportunidades é certo, mas também com situações potencialmente desestabilizadoras e que poderão exigir alguma atenção por parte das instituições e reguladores.

As mudanças potenciais decorrentes da ascensão da economia digital colocam desafios adicionais

Uma nova economia assente em maior conectividade, desintermediação e tecnologia mais acessível vai espoletar mudanças significativas. Desde logo no que diz respeito aos hábitos de trabalho, onde o trabalho flexível e remoto poderá permanecer como rotina parcial nos sectores onde já está a ser implementado como resposta sanitária à pandemia. A diminuição do tempo despendido nos locais de trabalho, e consequente diminuição do tempo necessário em transportes, pode permitir uma alteração na decisão da escolha do local de residência (beneficiando as cidades da periferia), sobretudo se esta prática possibilitar 30% a 40% de teletrabalho.

Outra alteração prende-se com os efeitos de deflação associados ao processo de inovação, que permite que, num contexto de elevada implementação, as empresas obtenham custos de produção bastante mais baixos (por via de maior automação) e uma maior transparência, dada a potencialidade de comparação de preço em regime de concorrência online – o que originará menores níveis de inflação do que aconteceria em situação normal.

Por último, há desafios que governos e reguladores terão de enfrentar. As dificuldades com a transição digital, sobretudo na componente de emprego menos qualificado, que irá atravessar maiores dificuldades em se inserir na nova segmentação de oferta criada, e as dificuldades de capturar o nível real de atividade económica, uma vez que as transações assentarão cada vez mais em formato digital em detrimento da abordagem tradicional e também pelo facto de muitos bens se transformarem em serviços (ex: a música, antes vendida em suporte CD, hoje é vendida em serviço de streaming) são alguns exemplos dos obstáculos a ultrapassar.

‘Bottoms up’: a desigualdade e o papel crucial do Estado e dos reguladores para garantir equilíbrios

Muitas pessoas com baixos rendimentos não têm literacia digital nem acesso à tecnologia para poderem transitar com sucesso para um mundo mais conectado e digital, o que vai limitar a obtenção das qualificações necessárias para muitos dos empregos que são criados, ou ainda limitar a capacidade das crianças destes agregados de baixos rendimentos de progredirem no sistema educacional.

De certa forma, estas fragilidades já foram expostas durante o período de confinamento, com a exclusão digital a criar situações de desigualdade, quer no ensino quer no trabalho à distância, pelo que será, provavelmente, o desafio de maior monta que os Estados terão pela frente durante a próxima década.

Pode acontecer que o impacte da automação acabe por criar empregos suficientes para equilibrar aqueles que irá destruir. Mas levará tempo, e a necessidade de adaptação vai exigir debate sobre formas de aliviar a pressão sobre o emprego, com soluções como o rendimento básico universal (RBI) ou a tributação sobre automação (robot tax) a ocuparem um lugar central nas discussões nos próximos anos.

Garantido é o aumento do papel dos Estados neste processo de controlo da desigualdade, mas também na gestão dos equilíbrios relacionados com os investimentos das infraestruturas necessárias para alavancar a revolução digital, e também no que diz respeito às inovações necessárias para tributar de forma correta a nova economia digital.

Da mesma forma, a regulação também irá enfrentar desafios importantes nas áreas da gestão e utilização das bases de dados, transparência nas transações e cibercrime. Tarefas que vão exigir esforços de cooperação entre Estados, que poderá tornar mais interligada a comunidade internacional e levar a uma inversão do recente aumento do protecionismo a nível global, quiçá reforçando as instituições mundiais, embora também possa originar novas tensões – dependendo, muito provavelmente, dos progressos que forem feitos na criação de um novo pacto social com os cidadãos. Desta capacidade de criar equilíbrios dependerá muito do sucesso da revolução digital enquanto criadora de valor para a sociedade humana.

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