A ascensão dos metais preciosos

Como moedas, instrumentos de especulação financeira ou mercadorias industriais, ouro e prata sempre desempenharam um papel de grande importância e é pouco provável que tal mude tão depressa.

Apesar do caos causado pela pandemia e pelo acentuar das tensões sino-americanas, o velho favorito dos investidores conseguiu manter o seu encanto. Refiro-me ao ouro, é claro. O preço do metal precioso já subiu mais de 30% desde o início de abril, tendo recentemente um novo máximo histórico, sendo que se está rapidamente a aproximar dos 2.000 dólares por onça, o que pode bem concretizar-se antes da publicação deste artigo.

O ouro é tradicionalmente encarado como um ativo de refúgio, pelo que é procurado sobretudo durante períodos de incerteza e crise. Devido ao seu valor intrínseco, permanece um investimento viável quando a inflação dispara e as moedas desvalorizam. Nessas alturas, o preço deste metal precioso tende a subir, enquanto ativos financeiros de risco, como as ações, normalmente caem.

Curiosamente, a ascensão do ouro costuma ter lugar apenas após o choque inicial provocado por um crash do mercado de ações. Frequentemente, os investidores reagem à queda precoce fechando posições no ouro, com o intuito de suportar margin calls e cobrir perdas vindas de outras frentes. Contudo, após o choque inicial, invariavelmente, o ouro adquire destaque. A crise financeira de 2008 fornece uma boa ilustração destes mecanismos: no final de 2007, quando os mercados financeiros e a economia real entraram em declínio, no rescaldo do colapso do subprime, o preço deste metal precioso também caiu, de quase 1.000 dólares para cerca de 700 dólares por onça.

No entanto, em 2008, à medida que as bolsas continuaram a cair e os investidores se prepararam para estímulos dos bancos centrais e um crescimento económico anémico sem fim à vista, o valor do ouro começou a aumentar até meados de 2011, quando alcançou o seu nível mais alto de sempre, acima de 1.900 dólares, que, até há poucos dias, tinha sido um máximo histórico.

Ora, o aspeto mais notável deste rally do ouro é o facto de estar a ocorrer durante um bull market, no qual as ações assumem uma tendência de alta, o que é incomum e se demarca dos contornos tradicionais acima expostos. Este contexto pode ser, portanto, lido como um sinal de que muitos investidores estão a proteger as suas carteiras, não obstante o aparente otimismo refletido nos ganhos dos principais índices bolsistas.

Porém, o ouro não é o único metal precioso a brilhar atualmente. O desempenho da prata é ainda mais impressionante em comparação. Na semana passada, pela primeira vez desde 2013, o seu preço atingiu os 23 dólares por onça, um aumento de mais de 100% em relação ao limiar de 11,28 dólares registado em março deste ano. Muitos analistas estimam que o valor da prata possa continuar a ganhar terreno e fique perto do seu nível mais alto de sempre, nos 49,51 dólares, também alcançado em 2011.

As dinâmicas subjacentes à evolução do preço da prata são semelhantes às da do ouro, com uma dimensão adicional que advém do status da prata enquanto mercadoria industrial.

Estima-se que 50% da procura global de prata seja proveniente do setor industrial. Entre inúmeros outros usos industriais, o metal precioso é um componente vital das células fotovoltaicas usadas em painéis solares. Com os governos um pouco por todo o mundo a procurarem revitalizar as suas economias, profundamente abaladas pela pandemia, e a anunciarem o financiamento de novos programas de energias renováveis, a procura pelas matérias-primas necessárias, nomeadamente prata, aumenta, elevando os preços.

Como moedas, instrumentos de especulação financeira ou mercadorias industriais, ouro e prata sempre desempenharam um papel de grande importância e é pouco provável que tal mude tão depressa.

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