A auto-execução ecossistémica e o futuro da blockchain

A independência da blockchain é a garantia de que os seus ‘Smart Contracts’ são executados obrigatoriamente para todos os elementos a ela ligados. É por isso que esta execução é automática.

A auto-execução ecossistémica é tão ou mais revolucionária que a própria invenção do computador e da internet. Mas o que é a auto-execução ecossistémica?

A base do funcionamento da economia é a informação. A partir dos anos 60, os dados desmaterializaram-se em suporte informático e melhoraram extraordinariamente a forma como essa informação passou a ser tratada, dentro e entre as organizações.

Antes da blockchain, esses dados careciam de uma custódia para responsabilizar quem os detinha, isto porque a informática não é indelével como o papel. Além disso, os agentes económicos tiveram de complicar extraordinariamente a informação que cada organização detém sobre as outras para poder verificar a correção e a coerência desses mesmo dados.

Foram também criadas organizações para manter cópias dos dados das outras, isto para reduzir o risco de fraude, dada a facilidade com que se alteram os dados desmaterializados na computação tradicional. Além disso, também apareceu um número enorme de organizações com a função específica de aumentar os níveis de confiança entre os vários actores. E depois temos os tribunais para resolver as disputas.

Todos nós achamos isto normal porque este é o único mundo que conhecemos, mas a partir de agora, com a blockchain, tudo vai ser diferente devido à auto-execução ecossistémica, e é o facto de a blockchain ser independente de qualquer entidade em particular que a torna tão revolucionária. A independência da blockchain é a garantia de que os seus Smart Contracts são executados obrigatoriamente para todos os elementos a ela ligados. É por isso que esta execução é automática, ou seja, acontece quando têm lugar as condições programadas nos seus Smart Contracts e vale para todo o seu ecossistema, tornando-o extraordinariamente mais simples. Vamos a um exemplo.

Não é por acaso que muitos dos exemplos mais divulgados vêm do sector financeiro, num movimento de nome #Defi – finanças descentralizadas – pois é uma indústria de informação pura, e onde a confiança é fundamental, para além de ser a base de todas as outras indústrias. Vamos então dar o exemplo mais simples possível que é o do pagamento com cartão de débito, para ver o que acontece ao ecossistema – é um tipo de exercício que temos feito na Universidade Católica desde 2019, no contexto da estratégia avançada de ecossistemas.

Quando procedemos a um pagamento, o primeiro passo é o uso do TPA, o qual envolve o comerciante, um processador de pagamentos e o chamado Acquirer do cartão. Em Portugal, a maioria dos dados passa pela SIBS, a qual informa a Visa para autorizar a transacção. Os dados vão depois passar para os bancos envolvidos para registo nas contas do cliente e do comerciante. Pode dar-se o caso de o pagamento acontecer no estrangeiro, envolvendo adicionalmente outro banco e o processo de compensação entre os respectivos bancos centrais. Além disso, ainda temos os reguladores e os órgãos de auditoria e fiscalização das diversas entidades a velar pela coerência de toda esta informação.

Vamos agora imaginar a mesma transacção nas mãos da auto-execução ecossistémica, uma espécie de bitcoin com funções adicionais de conformidade. Neste caso, o pagamento acontece directamente entre as carteiras de criptoactivos do cliente e comerciante, e é tão simples quanto ler um QRCode.

Mas como o sistema é auto-executável, e um pagamento é sempre realizado numa massa monetária legislada, o Smart Contract desse pagamento vai executar verificações de conformidade, tais como as do financiamento ao terrorismo ou branqueamento de capitais. E pronto, não é preciso mais nada para além da blockchain e da arquitectura de tokens necessária ao reconhecimento pela lei da massa monetária em causa. É mais simples e garantido para todos os utilizadores ligados a cada blockchain.

O redesenho dos ecossistemas que beneficiem das propriedades da auto-execução ecossistémica é inevitável, nem que seja por causa da inelutável lei universal do menor esforço.

Todas as empresas em todas as indústrias deveriam estar hoje a equacionar cenários prováveis de evolução, descobrindo que partes do seu ecossistema se vão tornar auto-executáveis. Aliás, já há neste momento um conjunto blockchains nas mais diversas áreas, mas ainda relativamente compartimentadas da economia tradicional por falta de legislação e de regulação, mas isso resolve-se. A legislação actual sobre criptoactivos revela uma justa preocupação com a reserva de valor, e da eventual adopção das criptomoedas como meio de pagamento.

Será que vamos começar finalmente a discutir a regulação da auto-execução ecossistémica?

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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