A boa moeda

A luta de Medina deverá começar por convencer os socialistas e agrupá-los do seu lado, sob pena de ver a CDU crescer exponencialmente em Lisboa.

1. Rui Rio, o líder do PSD, parece ter acertado desta vez na escolha de candidatos para as autárquicas, nomeadamente para Lisboa, com Carlos Moedas. A boa reputação precede-o, não lhe sendo conhecidos “telhados de vidro”, e com um curriculum em empresas privadas e depois em Bruxelas como alto comissário, onde dirigiu toda a área de aplicação de fundos de inovação.

Ao longo dos últimos anos, Moedas esteve em grandes escolas internacionais, onde aumentou conhecimento e prestígio. Vai enfrentar o atual autarca de Lisboa, Fernando Medina, também possível candidato à sucessão de António Costa no PS. Medina, contrariamente a Moedas, que vai agregar quase todo o centro-direita, conta com oposição interna no trabalho à sucessão no partido, onde tem Pedro Nuno Santos pela frente e que se posiciona como o melhor candidato.

Por essa razão, a luta de Medina deverá começar por convencer os socialistas e agrupá-los do seu lado, sob pena de ver a CDU crescer exponencialmente em Lisboa, com os socialistas a acreditarem que não votando Medina mas sim na CDU, terão garantido na mesma a presidência de Lisboa via coligação.

Para Moedas, a candidatura servirá como um tirocínio para um objetivo mais ambicioso. Rui Rio, que aposta na boa moeda, tem um candidato que está no local de onde sai grande parte dos futuros dirigentes políticos nacionais, a Fundação Gulbenkian, e embora tenha escolhido bem, este poderá apresentar-se naturalmente como o seu putativo sucessor e sem necessidade de vencer Lisboa. Rio foi pragmático e, independentemente de saber isso, escolheu o melhor candidato.

Costa aposta o futuro em Lisboa porque se o PS não ganhar é um novo pântano a fazer lembrar Guterres, e demitir-se-á. Lisboa vota tradicionalmente nos partidos de esquerda, e Santana Lopes foi a exceção mais recente.

2. A escassa prioridade dada à recapitalização das empresas com as verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) foi alvo de forte crítica da CIP – Confederação Empresarial de Portugal. O Governo já tentou dar uma resposta cabal com as declarações da presidente do Banco Português de Fomento, citadas pelo ECO.

O recurso a um empréstimo de 1.250 milhões de euros para financiar e capitalizar empresas através de instrumentos de quase capital é uma solução. Aliás, o ministro Siza Vieira já tinha avançado com uma ideia semelhante. De qualquer forma, os patrões não estão contentes com a solução e querem que o PRR seja mais orientado para melhorar a capacidade competitiva das empresas.

O ambiente no pós-pandemia vai trazer novidades a nível de modelos de trabalho, mas também a nível de expectativas e comportamentos do consumidor, e esse será o grande desafio. As verbas da ‘bazuca’ vão esmagadoramente para investimento público, enquanto as verbas do Banco Português de Fomento merecem dos patrões naturais desconfianças, tanto mais – dizem – que o fundo de capital anunciado no PEES – Programa de Estabilização Económica e Social para apoio dos capitais das empresas ainda não foi concretizado.

Infelizmente, continuamos com a estratégia do marketing, dos grandes anúncios e da criação de expectativas… Mas os sectores de atividade que criam a maioria dos empregos continuam sem perceber em que condições irão regressar à atividade. E para o contribuinte comum, a preocupação relevante é saber até quando é que será possível “alimentar” todos os apoios que continuam a ser dados, caso dos lay-offs.

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