A capitalização em bolsa, a liderança e a saúde nas empresas

Receio que as organizações, empresas ou de outro tipo, olhem para a saúde psicológica na sua relação com os locais de trabalho de forma muito incompleta e enviesada… quando olham.

Sabia que a prevenção dos riscos psicossociais contribui decisivamente para a valorização da sua organização e que o “engagement” que também daí deriva é um factor mais determinante no valor bolsista das empresas do que muitos dos indicadores financeiros utilizados para prever a sua valorização?

Dan Ariely, psicólogo, apresentou recentemente investigação, com 15 anos de dados, sobre factores correlacionados com o “engagement” medidos nessas empresas. Durante cinco anos, monitorizou um índice bolsista com uma carteira de empresas escolhida por ele com base nesse “engagment”. E investiu de acordo com esta carteira de acções. Resultado, a valorização foi o dobro do Standard & Poors 500 nesse mesmo período.

Por vezes, receio que as organizações, empresas ou de outro tipo, olhem para a saúde psicológica na sua relação com os locais de trabalho de forma muito incompleta e enviesada… quando olham.

Pensando nos exemplos de algumas empresas mais conscientes da importância de locais de trabalho saudáveis (e que não interpretam a saúde como apenas física), fico na dúvida se apostam em acções nesta área para evitar danos na sua imagem, por genuína preocupação social com o bem-estar dos seus trabalhadores, porque foram notificados para o fazer pela Autoridade para as Condições do Trabalho, se fizeram as contas ao dinheiro que estão a perder e à consequente redução da sua competitividade no mercado, ou pela combinação de algumas destas razões.

Tendemos a achar que enquanto gestores decidimos de forma fria, calculista e racional de acordo com os modelos matemáticos mais sofisticados e por isso mais custo-eficazes, criadores de maior valor para nossa organização. Mas será isto verdade?

A evidência científica diz-nos que as organizações com melhores resultados na avaliação dos seus riscos psicossociais são também aquelas onde encontramos trabalhadores com maior “engagement”. Também sabemos através da investigação que o compromisso com a organização traduz-se em mais satisfação, menor propensão para sair da organização e mais actividade inovadora.

Quanto mais comprometidos, mais predispostos a fazer mais um pequeno esforço para além do que é esperado ou a ter mais iniciativas para a melhoria de processos sendo mais proactivos. Sendo assim, é racional tomar as medidas que promovam isto mesmo. Prevenir riscos psicossociais tem vantagens claras e quantificáveis que vão para além do benefício social e individual associado à melhoria do bem-estar das pessoas, contribuindo todos os dias para a missão das organizações com melhor trabalho.

Se queremos adoptar estratégias com este objectivo de criar e desenvolver maior compromisso temos que investir nalguns factores, como por exemplo: tratar de forma justa os trabalhadores; os gestores devem demonstrar integridade; reconhecer o valor das pessoas nas organizações; ou promover que os trabalhadores possam expressar-se internamente e assumir alguns riscos e… falhar.

Mais de 50% do que determina estas várias dimensões passa pela forma como o líder desempenha o seu papel. Não, não é fazendo de conta que fazemos. Não, não é com panaceias. É recorrendo ao conhecimento científico e aos serviços de profissionais que sabem como intervir com base na melhor evidência disponível e… não, não é só tecnologia, são as pessoas e os seus comportamentos.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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