A cena do ódio

A capacidade de expressar ódio sem qualquer ideia subjacente é uma singularidade destes tempos que merecia ser estudada pela sua manifesta vacuidade.

(A título de notas soltas, não comento o novo acórdão subscrito por Neto de Moura porque RAP disse tudo o que havia por dizer, excepto que, ao contrário da maior parte das pessoas, dei-me ao trabalho de o ler. Também nada tenho a referir sobre a vitória de Conan na Eurovisão, a não ser que vislumbro vantagens no desconhecimento europeu da língua portuguesa. Não comento, igualmente, a morte de Arnaldo Matos porque aprendi com ele que devemos derrotar os adversários em vida, deixando apenas a nota que, como Fernando Nogueira disse há umas décadas, de facto, neste país, todos os poetas mortos são óptimos. Por último, pouco tenho a referir quanto à confusão que o Conselho Geral da Ordem dos Advogados criou, lançando notas de débito e de crédito no valor de milhões aos que são obrigados a pertencer a esta associação. Fui virtualmente rica por uns dias e ninguém me avisou a tempo. Nada disto sucede pela proximidade ao Carnaval mas por se tratar de Portugal).

Os tempos, já o disse, não são fáceis porque somos bombardeados com notícias, notificações, mensagens, emails e toda a sorte de solicitações que exigem resposta imediata. A rapidez, ou celeridade como se usa dizer, é a bandeira deste século, aprisionando-nos a instrumentos que nos deveriam facilitar a vida. Não temos tempo para ponderar, para reflectir, para assentar ideias.

Disse-se que a internet democratizou a informação, esquecendo-se que, rapidamente, foi tomada de assalto por agendas ocultas que nos transformam em meros repassadores das chamadas fake news. Sucede que tem sido também o veículo da demonstração acéfala de ódios, comentários misóginos e ofensas corriqueiras, banalizando-se o mal que se afirma combater. Em contraciclo, bem sei, entendo que todas as ideias são discutíveis mas as pessoas dificilmente o são e, menos ainda, por meio de juízos ofensivos.

Os últimos dias têm sido particularmente profícuos nesta arte que os portugueses desenvolveram de forma espectacular e que é a de serem uns heróis atrás do teclado, proferindo enormidades, seja por causa dos destinos do seu clube, seja por um acórdão que não leram. A título de mero exemplo, apenas porque escrevi algo similar ao que aqui consta, uma horda de terroristas do ecrã invadiram o meu perfil, com comentários que nunca seriam feitos a um homem e que visavam, sem grande sucesso é certo, incomodar-me. A capacidade de expressar ódio sem qualquer ideia subjacente é uma singularidade destes tempos que merecia ser estudada pela sua manifesta vacuidade.

Tal como sucede na nossa casa, quem discute e combate ideias deve ter palco na internet. Os outros limitam-se a ocupar espaço. Oscar Wilde disse que alguns causam felicidade aonde quer que vão; outros, sempre que se vão. É o que penso dos segundos.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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