A chantagem de Bruno de Carvalho

Bruno de Carvalho foi eleito por quase 90% dos sócios para um segundo mandato de quatro anos. O Sporting ganharia em que se centrasse no essencial: governar bem o clube. Insistir neste protagonismo, em que se vitimiza por coisas nas quais ninguém repararia se ele não falasse, é apenas ridículo

Bruno de Carvalho, obviamente, nunca se pensou demitir. Na verdade, fez apenas uma pequena birra porque a maioria dos sócios presentes na última assembleia geral, depois de terem votado todos os pontos anteriores da forma como o presidente do clube queria, lhe negaram o “sim” naquela parte que configurava um aprofundamento do poder pessoal. Mais do que acabar com o Conselho Leonino e substituí-lo por um grupo de amigos fiéis, Bruno de Carvalho anseia pelas alterações disciplinares que lhe permitam castigar, suspendendo ou expulsando, os sócios maus, ou seja, aqueles que exercem a propósito do Sporting a liberdade que a Constituição lhes garante no País.

A conferência de imprensa em que anunciou a continuação, há pouco, voltou a ser delirante e incompreensível. Quase uma hora a falar para lançar uma chantagem aos sócios: ou aprovam o que ele quer, em outra AG, no próximo dia 17, ou, então sim, demite-se.

Confirma-se: o presidente do Sporting convive mal com a crítica, seja em que domínio for. Só nos últimos dias, fez uma lista de nomes de sócios considerados inimigos. Decretou um castigo a um grupo vocal. Insultou sportinguistas que lhe pretenderiam dar conselhos públicos com a melhor das intenções.

Bruno de Carvalho parece desconhecer que a unidade de um clube, como sempre, não se faz pela vontade do líder – acontece pelos (bons) resultados desportivos, nomeadamente no futebol e pela transparência da gestão.

Como presidente, Bruno de Carvalho pode reivindicar algumas coisas importantes no Sporting. Devolveu competitividade à equipa de futebol, mesmo que ainda não tenha conseguido um título de campeão nacional. Escolheu bem qualquer dos três treinadores, Leonardo Jardim, Marco Silva e Jorge Jesus, cada qual com o seu estilo, mas bem mais competentes do que era norma em temporadas anteriores em Alvalade. Incrementou o ecletismo, ressuscitando várias modalidades. Construiu o pavilhão João Rocha. Mas também tem tido um percurso errático em muitas matérias. Contratou dezenas de jogadores sem capacidade para jogarem no clube, e que, é claro, não triunfaram (algo que também ele criticava no passado, e com razão). Começou por reduzir para metade o orçamento do futebol (que considerava exagerado) e agora levou-o para o dobro do que encontrou. Lançou uma guerra aos fundos financeiros e está já hoje a contratar jogadores da mesma maneira. Perdeu a cruzada com a Doyen, à qual teve de pagar com juros. Comporta-se demasiadas vezes publicamente com uma falta de cultura e educação que não são compatíveis com o estatuto de presidente do Sporting Clube de Portugal, e de que são exemplos gritantes os seus terríveis e delirantes posts no facebook.
Nada disto faz sentido.

Bruno de Carvalho foi legitimamente eleito por quase 90% dos associados do clube para um segundo mandato de quatro anos. Deveria focar-se no seu trabalho, na união do clube, não pela força mas pela razão. Alguém lhe deveria explicar como é ridículo fazer-se de vítima pela derrota da equipa de futebol no Estoril, quando esse é um drama comum de qualquer presidente de clube de futebol no mundo.

Quando venceu as eleições, Bruno de Carvalho apanhou uma conjuntura favorável. Herdou uma reestruturação financeira que só precisava de uma última discussão com a banca e beneficiou da luta que Domingos Soares Oliveira e o Benfica travaram contra a ditadura de Joaquim Oliveira e da SporTV nos direitos televisivos – e por isso conseguiu fazer um excelente contrato com a NOS.
O Sporting ganharia em que se centrasse no essencial: governar bem o clube. Insistir neste protagonismo, em que se vitimiza por coisas nas quais ninguém repararia se ele não falasse, é apenas ridículo.