A circulação de dinheiro

A cooperação internacional e a luta contra o branqueamento de capitais é uma ilusão, uma promessa que não pode ser levada a sério, pelo menos na Europa.

Portugal foi uma grande plataforma de circulação de dinheiro para as mais variadas nacionalidades, onde tudo foi permitido. Só assim foi possível evitar a falência, ou o resgate, mais cedo, de grande parte do sistema financeiro, que viveu às custas de dinheiro alheio, enquanto financiava projectos que hoje sabemos serem verdadeiros elefantes brancos, agora objecto de perdões milionários.

Vem esta introdução a propósito do sexto aniversário da Operação Marquês, sem qualquer conclusão, nomeadamente devido à ausência de resposta da Suíça relativamente a informações das contas em investigação. É incompreensível que não haja queixas na Comissão ou no Parlamento Europeu por parte das autoridades portuguesas contra este tipo de comportamentos, uma vez que grande parte das empresas que estão associadas a estas investigações, e mais recentemente a Isabel dos Santos, passam pela Suíça, tendo Portugal como ponto de apoio.

Basta recordar que os EUA não só multaram o Credit Suisse em 2,3 mil milhões de dólares em 2014, como ainda obtiveram rapidamente todos os nomes e dados das contas de cidadãos americanos nessa instituição. Já em 2009, o UBS tinha acordado em pagar 780 milhões de dólares, tendo escapado ao seu pagamento graças a um acordo entre a Suíça e os EUA que previa a entrega do nome de milhares de cidadãos americanos, bem como implementação de um sistema de troca de informações relativamente aos seus cidadãos.

Ou seja, através da pressão política e económica, a justiça, apoiada no IRS americano, conseguiu reaver não apenas os dados das contas, como ainda recebeu montantes relevantes através das multas. Portugal, fazendo parte do maior bloco económico do mundo e estando muito mais perto, não consegue obter meros extractos bancários e seguir o rasto do dinheiro.

Muitas das operações que lesaram o sistema financeiro português em milhares de milhões de euros passaram pela Suíça ou por outros paraísos fiscais, que saem incólumes e sem qualquer penalização de tudo isto.

Não existe interesse político em atacar o roubo às próprias instituições bancárias, seja dentro da Europa, por via da Suíça, Chipre, Malta, ou fora dela, através das lhas Maurícias, Seicheles ou Dubai, e muito menos terminar com os conflitos de interesse ou ausência de analise de risco na atribuição de créditos, que depois são perdoados ou pagos quer por accionistas, quer por contribuintes que se transformam em lesados.

Fica provado que a cooperação internacional e a luta contra o branqueamento de capitais é uma ilusão, uma promessa que não pode ser levada a sério, pelo menos na Europa, que não consegue sequer tomar medidas de “enforcement” para parar esta grande circulação de dinheiro. Pouco a pouco percebemos o pântano onde estamos metidos.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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