A classe média na Ásia

Urge uma saída estratégica para as relações Ocidente-Ásia. Manter a política de hostilidade desencadeada por Trump não parece uma boa solução. Designar a China de “adversário estratégico”, como avançou Joe Biden, adianta pouco.

A noção de classe média é muito fluída e heterogénea no conjunto da população que, em cada país, se designa como tal, como também varia de país para país: não constitui um todo que se fortifica em torno de uma consciência social, nem em termos de qualificações, nem de escalões de rendimento.

Há muita criatividade na conceptualização do que é/pode ser a classe média. Poderá dizer-se que abrange várias camadas da população ocupando uma posição “central”, flutuante, nas sociedades.

Mas algo parece cimentar estas camadas populacionais apontadas ao que se designa de classe média: alguma valorização individual, apetência por uma maior aquisição de riqueza e um status social (carro top, casa, roupa de marca, formas de estar) e uma aposta em crescendo na formação própria e dos filhos, algo de interessante, se exceptuarmos a disputa de colégios, não pela qualidade, mas contra o ensino público.

Apesar das limitações conceptuais, que não deixam de acomodar uma certa “riqueza intelectual, a classe média desempenha um papel crucial no processo de crescimento dos países e também na elevada diversificação de padrões de consumo que induz um correspondente impacto no aparelho económico-produtivo.

O seu papel na Ásia

1. Um dos principais pilares para a região da Ásia-Pacífico se tornar o centro da economia mundial dentro de uma década, é, sem dúvida, a dimensão da classe média atingida nas últimas duas/três décadas.

A classe média ascendeu, em 2020, a cerca de dois mil milhões de asiáticos, estimando-se que atinja 3,5 mil milhões em 2030. São valores da Brookings Institution, uma entidade sem fins lucrativos sediada em Washington, que se dedica à investigação científica na área das ciências sociais.

Definida na base de um intervalo de rendimento, nela cabe a população que aufere entre 10 e 100 dólares/dia, medição em paridade de poder de compra, isto é, ajustada à inflação.

Esta definição agrega no seu seio patamares bem diversificados, podendo apontar-se para a existência de uma camada de baixos rendimentos, outra de rendimentos médios e uma outra de rendimentos elevados. Interessante seria escalonar a população segundo esta graduação dos rendimentos para obter um mapa da sua composição, pois entre ter no bolso 300 dólares/mês ou 3.000 vai um mundo e cada um de nós se vivesse na Ásia, e pudesse escolher, certamente não hesitaria na escolha do bolso.

Uma simples visão distributiva da classe média, por zonas do planeta, aponta, em 2020, para o seguinte panorama:

Ásia: 54%Europa: 20%Américas: 17%Médio Oriente e África do Norte: 6%Região Subsariana: 4%

A título de curiosidade. Em 2030, a classe média da Ásia representará cerca de 65% da classe média total do mundo, perdendo as outras regiões nestes 10 anos seis pontos percentuais, a Europa quatro, e as Américas e o Médio Oriente e Norte de África um ponto. Apenas a zona subsariana não perde posição.

Este quadro representa muito mais que uma simples alteração de valores na distribuição. Em curso, está um processo dinâmico de mudanças radicais no consumo privado e na economia mundial. Estima-se que, em 2025, os gastos da classe média da Ásia-Pacífico ultrapassem os de todas as outras em conjunto.

Mas acresce ainda uma situação nova, bem mais gravosa. Segundo a empresa de consultoria McKensie, o consumo de bens importados pela Ásia dos países ricos, até há pouco tempo mais por uma questão de status social, entrou em declínio e até 2030 vai tornar-se marginal.

Ora, esta tendência tem efeitos impactantes na redução das exportações dos produtos da Europa e EUA, o que, dada a sua dimensão, levará necessariamente a uma reconfiguração do tecido produtivo do Ocidente com efeitos perversos nas perdas de emprego, quebra de receitas das empresas exportadoras, fecho de empresas, ou seja, o Ocidente a entrar em decadência, a empobrecer.

Causas de tudo isto

Muitas, mas duas bem evidentes.

Uma primeira. As políticas externas de comércio de Trump afectaram a China que, em reacção, se reorientou para o seu próprio mercado, através de campanhas bem sucedidas de consumo de produção nacional.

A segunda prende-se com os efeitos do processo RCEP – Parceria Económica Regional Abrangente (RCEP, na sigla em inglês) – abordado em artigo anterior. O consumir regional está em crescendo, substituindo a muito curto prazo as importações de vários produtos da Europa e dos EUA, até porque fazem parte deste agrupamento países como o Japão e a Coreia do Sul, com tradição consagrada nos mercados mundiais, incluindo o sector automóvel. E mesmo a China tem vindo a afirmar-se em diversos produtos e serviços de natureza tecnológica, com ampla aceitação nos países da RCEP.

Assim, este vasto espaço económico tende a prazo para uma situação de grande auto-suficiência, reduzindo de forma drástica as importações da Ásia-Pacífico com origem no Ocidente.

Face a esta nova realidade em curso, as relações Ocidente-Ásia merecem reflexão, no sentido de encontrar uma saída estratégica. Continuar a política de hostilidade desencadeada por Trump, mesmo com outra roupagem, não parece uma boa solução. Designar a China de “adversário estratégico”, como avançou Joe Biden, adianta pouco.

A China, hoje, está cada vez menos só no terreno dos negócios e da economia. Está envolvida com os países RCEP, a que, em breve, outros se juntarão certamente e com “a nova rota da seda”.

Não se ignora que estamos perante dois sistemas políticos diferentes. Alguns dos assuntos, como os direitos humanos, que Biden apregoa para pressionar a China e outros países da Ásia, já foram considerados no acordo de investimentos União Europeia-China, pelo que acrescentam pouco de novo. Mais um problema de princípio.

As classes médias no Ocidente

2. Não há um grande paralelismo. As classes médias tiveram o seu papel no Ocidente, em períodos áureos de desenvolvimento em condições bem diversas e desfasadas entre países.

Nós europeus não nos esquecemos do período pós-Segunda Guerra Mundial, em que a Europa Ocidental, muito apoiada no Plano Marshall, viu crescer uma classe média que marcou pontos na construção de um Estado Social forte em vários países, excepto na Península Ibérica, onde, com toda a complacência da Europa Ocidental e EUA, se mantiveram Estados opressores e totalitários.

É neste contexto que se dão os gloriosos 30 anos de desenvolvimento na Europa, em que emergem classes médias significativas que ajudaram a consolidar os sistemas políticos dos países ocidentais. De algum modo isso é passado e hoje os problemas são outros e bem complexos.

Consolidar a União Europeia e a zona euro projectando-as no mundo como grande potência é o grande desígnio, o que exige uma estratégia de várias pontas.

Negociar com Joe Biden a posição da Europa, como parceira e em plano de igualdade, constitui uma dessas pontas. O relacionamento com a China, autónomo dos EUA, é outra. Tudo fazer para baixar a carga burocrática da União Europeia com decisões atempadas é um caminho instrumental para não se perder terreno competitivo como aconteceu recentemente nas vacinas.

Se a tudo isto se adicionar a digitalização das economias, onde o Ocidente está em perda, a transição energética e climática de forma articulada e numa perspectiva global, ainda apanharemos o combóio a tempo de atingir um patamar confortável no futuro.

Uma estratégia, muito trabalho e governantes competentes e com carisma precisam-se.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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