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A competição que desafia o culto da produtividade

Num mundo onde estar sempre ocupado é visto como virtude, desacelerar por completo pode ser um verdadeiro ato de resistência.
3 Agosto 2025, 11h15

Em Seul, a capital frenética da Coreia do Sul, 80 pessoas reuniram-se silenciosamente em tapetes de ioga para não fazerem absolutamente nada, numa competição que é em parte um desafio físico, arte performativa e um momento de descanso na sociedade competitiva deste país. Incentivar pausas e momentos de inatividade consciente pode aumentar a produtividade a longo prazo, ao reduzir o burnout, melhorar a concentração e favorecer a criatividade. Na União Europeia, a perda de produtividade por absentismo custa às empresas 100 mil milhões de euros por ano.

Assim, a competição anual Space–out procura descobrir quem é o melhor a ficar 90 minutos sem adormecer, ver o telemóvel ou falar. O ritmo cardíaco dos participantes é monitorizado a cada 15 minutos, enquanto os espetadores votam nos seus dez concorrentes favoritos. Quem alcançar a maior pontuação combinada em dois critérios: a pulsação mais baixa e estável, além de um voto de popularidade do público — alta mente subjetivo — leva para casa o troféu. O vencedor da edição deste ano foi Park Byung-jin, baterista de uma banda punk e executivo na área da tecnologia.

O evento tem um valor simbólico e indireto importante para a economia: representa uma crítica e uma resposta ao modelo económico e cultural de trabalho excessivo, especialmente em países como a Coreia do Sul, onde a produtividade e longas horas são frequentemente associadas ao sucesso. O concurso expandiu–se internacionalmente e já decorre em várias cidades, como Pequim, Roterdão, Taipé, Hong Kong e Tóquio. A ideia por trás do Space-Out nasceu da experiência pessoal da artista sul-coreana Woopsyang, que criou o evento em 2014 após sentir-se exausta e pressionada por uma cultura que glorifica a ocupação constante — mesmo dentro do mundo artístico.

Para ela, o ato de “desligar” não deveria ser visto como preguiça, mas como uma necessidade humana funda mental. “A perceção é de que o tempo passado a divagar é inútil”, disse. “Quis mostrar que esse tempo pode ser valioso.” Mais de quatro mil pessoas candidataram-se para as 80 vagas disponíveis na edição deste ano do Space-Out. Os organizadores selecionaram os participantes que consideraram representar um retrato demográfico da sociedade sul–coreana.

Peter Fransson, professor de fisiologia no Instituto Karolinska, na Suécia, pediu a várias pessoas para não fazerem nada, como parte de uma investigação, mas as suas mentes tendiam a alternar entre estar no momento presente e divagar. Será que ambos os estados mentais constituem “não fazer nada”? Ou nenhum deles o faz? É difícil dizer. “Não fazer nada, do ponto de vista psicológico, não é propriamente um estado mental bem definido”, explicou o professor Fransson ao jornal The New York Times. “Entramos e saímos desse estado”, acrescentou. “Talvez, com prática de meditação e afins, se consiga controlar isso até certo ponto. Mas acho que nem tudo está sob o nosso controlo.” A reflexão do professor Fransson sobre a dificuldade de “não fazer nada” revela um dos maiores desafios da vida moderna: a nossa mente nunca está realmente parada.


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