“Success is not final, failure is not fatal: it is the courage to continue that counts.” Sir Winston Churchill

Ao escrever o artigo de hoje tenho presente como todos nós a destruição que assolou Portugal nas últimas, semanas afetando centenas de PMEs e microempresas. E tenho bem presente a forma notável como os seus donos misturavam a tristeza com a determinação de pôr o negócio como estava. É a estes heróis e ao misto de dor e resiliência que nos demonstraram em tantas imagens que dedico com humildade estas linhas.

É frequente enaltecer o sucesso de empresas familiares que apresentam uma trajetória de desempenho e valorização ascendente ao longo de muitas gerações – casos do Grupo José de Mello, Grupo Queiroz Pereira (SEMAPA), Corticeira Amorim, Grupo Pinto Basto ou Fonseca & Simões para citar apenas alguns dos exemplos mais conhecidos.

Se a nível mundial são famosos casos como a Lego, a General Motors ou a Starbucks, Portugal não fica atrás no vigor com que foram geridos tantos casos de recuperação, todos onde se destacam três elementos comuns: resiliência, rapidez de ação e saber aprender com o falhanço. E o resultado é revigorante, uma inspiração para qualquer empresa que se veja de repente à beira do precipício…

  • Teixeira Duarte

Profundamente afetada por más decisões de gestão durante décadas e com as finanças depauperadas, a família substitui o líder que em apenas três anos atinge resultados extraordinários recuperando a posição do Grupo junto dos grandes nomes da indústria de construção. Um trabalho de grande humildade e inteligência.

  • Jerónimo Martins

Em 2002, Alexandre Soares dos Santos viu-se confrontado com péssimas decisões do seu filho mais velho que praticamente levaram o Grupo à bancarrota. Descartado o filho, recorre a um CEO experimentado que impõe medidas draconianas e mais tarde coloca no seu lugar o segundo filho. O sucesso do Grupo hoje está à vista de todos.

  • TMG

A empresa atravessou graves problemas com a abertura do mercado europeu à China e a crise de 2008, mas conseguiu reinventar-se graças a uma reestruturação intensa ao foco no setor automóvel facilitado com a parceria estratégica com a Somelos.

  • Fravizel S.A.

Um caso de estudo sobre a transição de liderança, onde a passagem do fundador para a nova geração (sucessão) foi crucial para a continuidade e modernização do negócio, evitando os erros comuns que levam à falência.

  • Coelima

Caso paradigmático de uma casa icónica em insolvência exigindo a reestruturação de uma dívida de cerca de 30 milhões de euros, decorrendo a tentativa de compra pela Mibera mas ensombrada por dívidas desta à Segurança Social. Como somos otimistas, mantemos nesta lista a grande têxtil nacional.

Estes casos são emblemáticos de tantas empresas familiares que falharam, mas hoje respiram saúde e vitalidade. E quem viveu casos assim sabe bem que foi graças ao empenho quase heroico e à fé inquebrantável de gestores e acionistas que foram salvas e gradualmente recolocadas na rota do sucesso.

Mas esta fé e este heroísmo, assim como a resiliência, rapidez de ação e saber aprender com o falhanço não chegam, a recuperação de empresas familiares é complexa e há vários fatores instrumentais com um papel por vezes determinante para a recuperação de uma empresa em grandes dificuldades…

  • a passagem do poder à próxima geração superando as colisões com a geração anterior, se ela estiver preparada e empenhada
  • a profissionalização da gestão (pela entrada de gestores externos ou pela superior competência dos jovens acionistas)
  • o reforço dos modelos de governance acionista e societário – com destaque para um órgão tipo Conselho de Família e a contratação de administradores ou assessores independentes
  • a revisão do foco estratégico da empresa com o desenvolvimento adaptação a novos mercados, reforçando o alcance e a resiliência da empresa
  • a entrada de novos acionistas (frequentemente fundos de Private Equity) e, havendo fundos e um bom racional, a aquisição de uma empresa que acelere o crescimento e valorização da casa original

E seria irrealista não juntar a este conjunto a sempre preciosa e nada rara injeção de fundos do sacrifício financeiro dos próprios acionistas e da Banca.

Pode sempre haver ao dobrar da esquina surpresas ou más decisões que atiram com uma empresa familiar ao tapete. Poucas estão livres disso e é, portanto, saudável que haja a consciência de que pode acontecer e preparar na medida do possível as ações que se possam tomar.

Uma recuperação bem-sucedida da empresa familiar exige o contributo de muitos do que escrevi, mas o tremendo esforço de recuperação de uma empresa em dificuldades só vai ter resultado se à cabeça houver um grande líder – carismático, com visão e determinação e com as mangas arregaçadas. Um grande gestor profissional, seja acionista ou não.