A crise do PSD e a crise do País

A crise do PSD vem daqui: em virtude das circunstâncias e dos caprichos da Fortuna, o PSD nunca de 1994 para cá teve oportunidade de recorrer ao Estado e ao festim do Orçamento para encher os bolsos de um número suficientemente grande de portugueses, e em Portugal só se conseguem maiorias absolutas quando existe essa oportunidade.

A crise do PSD não começou com Rui Rio, nem sequer com Passos Coelho, mas com Cavaco Silva. Corria o ano da Graça de 1994, e o PSD estava há nove anos no governo, sete dos quais com uma sólida maioria absoluta na Assembleia da República. Nos tempos da AD, o partido precisara de se coligar com o CDS (que não era propriamente pequeno), o PPM de Ribeiro Telles e os “Reformadores” transeuntes do PS para chegar a tal conforto, e em 1985, com o país saído do “apertar do cinto” do “Bloco Central”, o próprio Cavaco ficara bem longe de o conseguir. Mas, em 1986, Portugal entrou na CEE, e tudo mudou.

Com o dinheiro dos “fundos” europeus, Cavaco podia acenar aos eleitores com a “modernização” da economia portuguesa, a construção de estradas, escolas, ou hospitais. Os eleitores gostaram da ideia. Quando os aguadeiros de Eanes (uma sinistra figura política hoje estranhamente santificada pela unanimidade) no PRD (que descanse em paz) cometeram a imprudência de “censurar” Cavaco e o então presidente Mário Soares marcou novas eleições, a prosperidade nascente e a expectativa da sua continuação e multiplicação levaram à primeira maioria absoluta cavaquista.

O dinheiro da “Europa” (e das receitas fiscais de uma economia que começava a prosperar com a sua abertura) continuou a jorrar, e com ele, Cavaco aumentou as reformas dos pensionistas, os salários dos funcionários públicos, deu “atenção” (ou seja, subsídios) à “internacionalização” das empresas portuguesas e protecção (com subsídios) aos “sectores” fragilizados por essa “internacionalização”, continuou a promover “grandes obras públicas”, e introduziu incentivos à concessão de crédito aos portugueses. Sem surpresa, em 1991, estes retribuíram renovando-lhe e ampliando a sua maioria parlamentar.

No ano seguinte, o aumento do preço do petróleo e a crise na Europa deixaram o governo num aperto, que logo se estendeu aos governados. O desemprego começou a disparar, as condições de vida pioraram, e as propinas aumentaram, tal como as portagens na “ponte sobre o Tejo”. No Verão de 1994, a ponte foi “bloqueada” num protesto contra o dito aumento, ao mesmo tempo simbolizando o asco que o país ganhara entretanto ao “cavaquismo”.

Cavaco, como sempre movido pela sua insaciável ambição pessoal, percebeu que se quisesse ser eleito Presidente em 1996 (não seria), precisava de se afastar rapidamente, e no ano seguinte entregou o PSD a Fernando Nogueira e o país ao PS de António Guterres, bafejado pela sorte de uma conjuntura bem mais favorável e de umas taxas de juro baixíssimas para os costumes pátrios.

Desde então, a dinâmica do “revezismo” governamental nunca mais deixou de ser a mesma: o PS propõem-se ser mais do mesmo, o PSD a ser menos do mesmo. O “despesismo” e a “austeridade” com que estes dois partidos respectivamente se acusam não passam de um resultado deste ciclo que repete há quase 25 anos: o PS governa enquanto a economia internacional e os bancos lhe permitem usar o Estado para saciar as mais variadas clientelas e dar aos cidadãos uma temporária (e relativa) prosperidade, e o PSD só lá volta quando a generosidade alheia se esgota, e só com a bengala do CDS (um partido de socialistas que gostam de usar o rótulo de “direita” como instrumento de afirmação de uma suposta superioridade social que mais ninguém lhes reconhece) a sustentá-lo, e nunca com os meios orçamentais necessários para repetir os “sucessos” do “cavaquismo”.

A crise do PSD vem daqui: em virtude das circunstâncias e dos caprichos da Fortuna, o PSD nunca de 1994 para cá teve oportunidade de recorrer ao Estado e ao festim do Orçamento para encher os bolsos de um número suficientemente grande de portugueses, e em Portugal só se conseguem maiorias absolutas quando existe essa oportunidade.

Bem vistas as coisas, estas dificuldades do PSD não deviam espantar ninguém. À nascença, e mais importante que a (essencialmente lendária) “social-democracia” das origens, o PSD foi o partido “natural” dos “altos-quadros” do Estado Novo (e especialmente do “marcellismo”), e se é verdade que uma grande (e importante) parte da “base social de apoio” laranja fosse constituída por pequenos empresários e trabalhadores “do privado” com “ambição” de “subir na vida”, também é verdade que estes dependiam (e dependeriam no futuro) de uma economia dependente do favor do Estado. A retórica das “contas certas” que tem dominado o falatório do PSD nas últimas décadas convida a esquecê-lo, mas em 1979, Sá Carneiro e seus subalternos extenuaram os bracinhos a assinar nomeações na Administração Pública, aumentaram as pensões e o défice orçamental, e não o fizeram sem motivo. Tal como não foi por nada que Cavaco criou o regime de salários dos funcionários públicos que hoje vigora e estrangula o Estado, ou que Marques Mendes (o único líder laranja a enfrentar os – cada vez mais preponderantes internamente – interesses do grupo de pressão autárquico) ou Manuela Ferreira Leite (que avisou a tempo qual seria o resultado do “socratismo”) foram, respectivamente, afastados da liderança do PSD e rejeitados pela vasta maioria dos eleitores.

De José Pacheco Pereira a João Miguel Tavares, passando por gente respeitável como Rui Ramos ou o seu oposto como Pedro Marques Lopes, a crise do PSD tem sido atribuída ou ao suposto facto de estar “demasiado” à “direita” ou ao de não ser “suficientemente” de “direita”. Mas – no seio do PSD e fora dele – “direita” e “esquerda” são cada vez mais meras etiquetas que os seus enunciadores usam como símbolo oratório sinalizador do seu desejo de se afirmarem (nem sempre com honestidade) como independentes de favores do Estado ou como pessoas preocupadas com as desigualdades de rendimentos e más condições de vida em Portugal. Na realidade, o problema é outro, e bem mais complicado, especialmente para o país: o PSD está em crise porque o Estado não tem, duradouramente, recursos para rechear as contas bancárias de uma suficiente vastidão de portugueses, e o facto de esse problema ser causa de uma crise no PSD mostra como não há em Portugal uma “base social de apoio” a uma série de reformas que pudessem tornar a sociedade mais próspera. Por isso mesmo, o PSD continuará em crise, e o país com ele.

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