A crise política e o fator de incerteza

A crise política só acontecerá se Costa concluir que tem mais a ganhar com eleições antecipadas. Mas a crise da energia levanta um fator de incerteza que pode baralhar estes cálculos.

Portugal já esteve mais perto de uma crise política, com o impasse nas negociações entre o Governo e os partidos da esquerda para a aprovação do Orçamento do Estado para o próximo ano.

Porém, divergências à parte, esta crise só existirá se o primeiro-ministro António Costa quiser. Independentemente do que o Bloco de Esquerda fizer, dificilmente o PCP estará disposto a correr o risco de provocar eleições antecipadas numa altura em que ainda está a lamber as feridas das recentes eleições autárquicas.

Tal como o Bloco, o PCP compreendeu que as consequências do “abraço de urso” que o PS lhe deu em 2015 o estão a corroer até aos ossos, mas sabe também que o preço político a pagar por quem fica com o ónus de deitar abaixo um governo costuma ser pesado. Além disso, o atual momento não é propício para os comunistas. Daí que estejam dispostos a negociar até ao fim, ao mesmo tempo que esperam capitalizar as eventuais concessões que conseguirem do Governo.

Além do PCP, também o PAN, as duas deputadas independentes e até o grupo parlamentar do PSD Madeira poderão ajudar a viabilizar o Orçamento, se o Governo realmente quiser que tal aconteça.

Por tudo isto, a crise política só ocorrerá se António Costa concluir que tem mais a ganhar em ir a votos agora, enquanto está à frente nas sondagens, em vez de ficar a penar durante os próximos dois anos, com um Executivo minoritário e cada vez mais acossado e fragilizado, dando tempo ao PSD para mudar de líder e fortalecer-se. Os guerreiros vitoriosos vencem antes de travar batalha e Costa sabe disso. Poder escolher a altura e o terreno é meio caminho andado para vencer. E para António Costa esse momento pode ser agora ou nunca. Haverá melhor remodelação do que formar novo Governo?

No entanto, esta semana entrou em jogo um elemento surpresa, que pode baralhar estes cálculos e gerar consequências imprevisíveis. O aumento do preço da energia e dos combustíveis, sem uma descida dos impostos que mitigue os seus efeitos, promete incendiar o país.

Como pode ler na entrevista com o vice-presidente da ANTRAM, que publicamos nas páginas 4 e 5, poderemos assistir a uma escalada dos preços dos fretes, o que por sua vez irá encarecer os bens essenciais e dinamitar as exportações portuguesas, que dependem fortemente do transporte rodoviário. Esperam-se, além disso, protestos e ‘buzinões’ por todo o país contra o aumento dos preços da energia e dos combustíveis, que trazem à memória o estertor do cavaquismo e reforçam a crença de que podemos estar, de facto, a chegar ao final de um ciclo político.

Resta saber se essa mudança de ciclo, a ocorrer, implica o fim da linha para o PS enquanto partido no poder e para António Costa enquanto primeiro-ministro, ou se, tendo em conta a fragilidade da oposição, teremos um novo ciclo mas com vários dos atuais  protagonistas. As próximas semanas serão decisivas.

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