O discurso proferido em Davos pelo primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, está a ser considerado um discurso que define o atual momento geopolítico.

Os danos causados por superpotências como os EUA conduziram a uma rutura da ordem global em que os fortes podem fazer o que querem e os fracos têm de sujeitar-se ao inevitável. Enquanto essa ordem global permaneceu alinhada com os interesses americanos, continuou a funcionar. Agora a realidade é outra.

O velho mundo está a morrer e estamos em transição para um novo mundo, marcado por agressões externas que ameaçam as democracias e acicatam a rivalidade económica. Para Carney, é chegada a altura de quebrar a ilusão que temos vivido e admitir que este sistema já não confere proteção ou estabilidade.

Uma visão pragmática até ao limite. Ora, as potências do meio têm de agir em conjunto, pois quem não estiver sentado à mesa de negociações, corre o risco de se tornar parte do menu. Mas talvez uma das frases do discurso que se destaca mais seja “Nostalgia não é uma estratégia”.

A nossa classe política tem vivido em nostalgia por uma política do século XX marcada pelo pós-guerra. Esse é o mundo como desejávamos que fosse, mas não é o mundo atual que enfrentamos. A solução de Carney é combater o isolacionismo e formar coligações de geometria variável com países estrategicamente alinhados. Ou seja, para se defenderem de agressões externas têm de formar blocos políticos.

Pergunta: onde estão as linhas vermelhas ao pragmatismo? Até que ponto esta retórica liberal não abandona os valores morais e desgasta cada vez mais as instituições democráticas?

O realismo e o pragmatismo apontados pelo primeiro-ministro canadiano quase que normaliza este estado de tensão permanente. E essa normalização não deixa de ser um caminho perigoso, especialmente se, pelo caminho, sacrificar os valores democráticos.

Por que razão têm as democracias de desistir dos seus ideais? Por que razão temos de aceitar um mundo sem regras? Aceitamos abdicar do Direito Internacional? O discurso proferido por Carney não será, na prática, uma nova política de resignação em vez de pragmatismo?

As elites políticas não decidem sozinhas, elas respondem aos seus cidadãos, e agora querem dizer-lhes que não há alternativas justas? Entretanto, em Davos e em toda a parte, a comitiva de Trump continua a manifestar a sua cobiça desmedida por territórios alheios, ao arrepio do Direito Internacional. E isso é algo a que nunca nos devemos resignar.