As emoções têm um papel sempre presente nas nossas vidas. Algumas até tentamos nunca as mostrar, mas elas estão sempre lá. O medo, por exemplo, é determinante para nos preparar face às incertezas ou a coisas que se diferenciam de nós, para tentarmos garantir a nossa segurança.

Já a raiva mobiliza-nos para agirmos, para lutarmos, face ao que consideramos uma ameaça ou injustiça e é a resposta comum e esperada face à percepção da violação de normas e leis. Ambas se conjugam e desempenham uma função historicamente adaptativa para a nossa espécie. Todavia, têm um lado negro, associado à barbárie, aos massacres, aos genocídios e às guerras.

Os líderes populistas usam o medo e a raiva, manipulam-nos, mentindo-nos e contando-nos estórias, total ou parcialmente falsas, que despoletam os nossos medos e a nossa raiva. É assim quando nos dizem que a violência tem aumentado devido aos imigrantes, fazendo-nos ter medo da sua presença junto de nós1. É assim quando agitam a corrupção das elites para nos fazer sentir injustiça e raiva. Depois, mobilizam-nos através dessa raiva em direcção aos supostos perpetradores de injustiças, contra Eles, as elites que nos exploram2.

Quando as pessoas têm medo abandonam o comportamento típico das situações que lhes são familiares e procuram novas soluções. Só que estas novas soluções, quando as pessoas estão enraivecidas, caracterizam-se por convicções reforçadas, não necessariamente factuais e parecem não ouvir as mensagens que as possam contradizer3. Quanto maior a raiva maior a força com que fazemos a defesa das nossas posições.

Se pensarem na nossa história mais ou menos recente encontrarão muitos exemplos destes factos e das suas consequências. A repetição desta história, nos dias de hoje, ocorre com meios de comunicação e disseminação de informação bastante mais potentes e sofisticados do que os cafés de antigamente. Comunicação social, redes sociais digitais, algoritmos, redes de transmissão de dados e computação velozes, misturando-se com maior isolamento social… são alguns factores de risco para o fenómeno nos dias de hoje.

Agora, o medo e a raiva encontram a democracia, como se numa conversa de café, e na sua expressão parecem até querer a sua supressão. A democracia, através da partilha explícita das representações do mundo que cada um tem, funciona como um espaço colectivo de correcção de enviesamentos.

A defesa e melhoria da qualidade da democracia também passa pelo cuidado com as emoções dos cidadãos, pelo exemplo das elites, pelo trabalho para prevenir injustiças ou a perceção das mesmas e pelo respeito pelas suas necessidades, com humildade.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

1 Portugal, segundo o último CENSO, apenas tem pouco mais de 5% de estrangeiros na sua população. Esta percentagem tem aumentado face a CENSOS anteriores, mas apesar deste aumento a percentagem de estrangeiros reclusos nos estabelecimentos prisionais portugueses e o seu número absoluto tem decaído. 

2 Na última década, foram 1.770 os condenados por corrupção (média de 177 por ano) e na década anterior 1.440 (média de 144 por ano). Os inquéritos abertos pelo Ministério Público, por exemplo devido a denúncias, foram de 3.500. Já a percepção que os portugueses têm sobre o fenómeno é que é mais elevada… mas sobre isto já escrevi aqui anteriormente. 

3 Passamos a um modo de pensamento em que os raciocínios são usados para apenas justificar o que pensamos e não nos questionarmos se podemos estar certos ou errados.