À descoberta de Descobertas

A qualidade está presente em todos os momentos de uma visita que se pretende uma experiência inesquecível. Assim se pode resumir a provocadora exposição “Museu das Descobertas”, no MNAA.

Há uma subtileza no nome da magnífica exposição temporária no Museu Nacional de Arte Antiga. Em inglês, a exposição é conhecida como Museum of Discoveries, cuja tradução para português é Museu de Descobertas. Mas o título português da exposição é Museu das Descobertas, sugerindo que se trata de uma mostra de obras de arte relacionadas com o período dos descobrimentos portugueses. Mas não é apenas relacionada com esse período.

O próprio museu considera que a designação Museu das Descobertas é provocadora, numa pouco velada alusão à (má) ideia de um eventual novo museu dedicado às Descobertas. Na verdade, esse museu já existe espalhado por museus de todo o país.

Como nos disse a excelente orientadora da visita que fiz à exposição, a ideia de gastar dinheiro público num desnecessário museu (com que peças? tudo digital?), havendo tantos (todos?) museus com dificuldades financeiras para manter, ampliar, qualificar pessoal, melhorar a experiência dos visitantes com a adoção de novas tecnologias, ampliar as coleções, restaurar e oferecer mais exposições temporárias – não é credível.

Várias obras expostas datam efetivamente do período em que Portugal foi uma grande potência mundial, como por exemplo os retratos dos vice-reis da Índia, joalharia indo-portuguesa ou uma maravilhosa caixa de alimentos japonesa decorada com figuras representando portugueses com os seus bigodes, semelhantes às que conhecemos dos biombos Namban expostos na coleção permanente.

A visita à exposição é efetivamente uma viagem de descoberta, denota muita expertise museológica. A qualidade está presente em todos os momentos de uma visita que se pretende uma experiência, objetivo expresso pelos organizadores da exposição, a última exposição temporária da responsabilidade do antigo diretor do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), António Filipe Pimentel, que aproveito para saudar aqui pelo excelente trabalho que desenvolveu.

Antes de se entrar no espaço expositivo, um ecrã mostra um vídeo com fotografias individuais de todos os colaboradores do museu, desde as responsáveis pela limpeza, aos curadores e restauradores, até aos diretores. Este vídeo, aparentemente simples pois o conteúdo principal são as fotografias daqueles trabalhadores, é de uma qualidade técnica inexcedível. Depois entra-se na experiência.

Numa primeira sala escura, uma escultura Bodhisattva Maitreya, talvez japonesa, talvez coreana, convida à meditação. Depois seguem-se salas temáticas com designações como “Preservar, estudar, comunicar”, “Religar”, “Desvendar”, “Restaurar”, “Salvaguardar”, “Doar”, “Circular”, “Projetar”, “Rastrear” que procuram comunicar ao visitante o que é a vida de um museu através de obras que raramente se veem porque provêm das reservas e também o passado, o presente e o futuro pretendido para o MNAA.

São dez salas em que várias tecnologias, como o raio X, são eficazmente utilizadas para transportar o visitante, não apenas para os segredos por detrás de imagens expostas, os chamados “arrependimentos” do artista revelados por camadas de pintura anteriores às da obra final, e que depois graças à digitalização de imagens são mostradas em ecrãs e se transformam numa narrativa que revela também outras vidas da vida de obras expostas, como os painéis de Santa Auta e Santa Úrsula.

O MNAA teve um enorme sucesso com a campanha de crowdfunding “Vamos pôr o Sequeira no lugar certo”, que recolheu 750 mil euros dos portugueses, i.e. mais 150 mil que o valor necessário para a compra da obra. O museu gostava agora de replicar essa iniciativa para a indispensável ampliação de todo o espaço museológico. O atual espaço já não comporta mais reservas, que se recolhem na cave, e para outras atividades permanentes, como o restauro.

Quando conversei com responsáveis do museu a propósito do projeto muSEAum, Branding de Museus de Mar de Portugal – financiado pela FCT e desenvolvido por CICANT, uma unidade de investigação da Universidade Lusófona – fiquei surpreendido quando me disseram que o MNAA se considerava um “museu periférico” em Lisboa: os autocarros de turismo não têm onde estacionar junto do museu, o que impede os operadores turísticos de incluir o MNAA nos seus roteiros. A ampliação prevista ocorrerá por debaixo do jardim do museu (espero que preservem as grandes e belas árvores) e dará acesso à Av. 24 de Julho, o que resolveria este constrangimento. Só falta o dinheiro.

Aconselho os leitores a não perderem tempo. A exposição encerra no dia 29 de setembro. E façam-no com orientação de um(a) profissional do museu, para o que têm de se inscrever pelo telefone 213912800 ou pelo email se@manaa.dgpc.pt. A orientação é importante porque se recebe muita informação que não está escrita e transforma a visita numa experiência inesquecível.

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