A desigualdade ainda é um problema?

Esperar que a economia volte a funcionar para apenas depois resolver os problemas sociais não é uma estratégia inteligente.

Muito se tem escrito e debatido sobre desigualdade nos últimos anos, sendo que esta ênfase na desigualdade significa que já se adoptou uma determinada perspectiva sobre os problemas sociais, que é diferente da perspectiva adoptada quando a ênfase é colocada na pobreza.

Em vez de nos centrarmos na desigualdade, poderíamos focar apenas a pobreza, entendida em termos absolutos, por exemplo, em termos da falta de acesso a funcionalidades essenciais para o desenvolvimento humano, tais como acesso ao emprego, saúde ou educação, entendendo que desde que essas condições essenciais para o desenvolvimento humano estejam asseguradas para todos, será pouco importante saber se há ou não desigualdade.

Mas mesmo aí, o problema é quando a desigualdade é ela própria causadora de pobreza, através das várias dimensões em que se manifesta, tais como a desigualdade no acesso a condições essenciais ao desenvolvimento humano, como a saúde e a educação, a desigualdade na distribuição da riqueza, ou a desigualdade na distribuição do rendimento.

De facto, uma das razões para a maior atenção ao tema da desigualdade resulta da desigualdade ser vista não apenas como uma consequência da performance económica, mas também como algo que acarreta consequências indesejáveis para a própria actividade económica. Se for assim, torna-se difícil adoptar a lógica de esperar que a economia volte a funcionar para apenas depois resolver os problemas sociais.

Pelo lado da oferta, maior desigualdade no acesso à educação e saúde influencia negativamente o potencial humano (muitas vezes designado, de forma algo confusa, capital humano), com impacto negativo na produtividade. Pelo lado da procura, uma maior desigualdade na distribuição do rendimento leva a menos rendimento disponível para quem por regra consome, e mais rendimento para quem tem a possibilidade de o poupar.

Essa transferência de rendimento do consumo para a poupança não afectaria a procura caso a poupança fosse canalizada para investimento através do sistema financeiro. Mas num contexto de recessão, como o que foi vivido na última década, o sistema financeiro acaba por não canalizar essa poupança para a economia real.

A acção dos bancos centrais no sentido de facilitar a cedência de liquidez por várias formas tentou contornar essa falha do sistema financeiro, mas os bancos comerciais, que são um elemento chave do mecanismo de transmissão da política monetária, acabaram por reter grande parte dessa liquidez enquanto precisaram dela, e enquanto a economia real não pareceu oferecer condições para investimentos cujo financiamento fosse aconselhável.

Os dados recentes parecem indicar que a economia está agora a recuperar, mas é preciso ter em conta que, após uma recessão com as proporções da que vivemos na última década, a falência de diversas empresas abre sempre espaço para as que sobrevivem ocuparem a posição de mercado das empresas falidas, o que obriga a algum investimento que reanima a economia. Esta reanimação, por outro lado, leva a que as poupanças retidas voltem a ser canalizadas para algum investimento, o que leva a uma ainda maior reanimação da economia.

Mas se essa reanimação ocorre sem que os mecanismos de acesso ao desenvolvimento humano permitam que os efeitos positivos se alastrem a todos, os problemas de fundo causados pela desigualdade acima elencados permanecem, colocando em causa a sustentabilidade de longo prazo dessa reanimação, e tornando a economia igualmente frágil face a uma nova crise financeira.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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