A desigualdade dos índices

Os índices deveriam, por defeito, ser representativos da economia, servir como referência para os investidores e como barómetro da economia para os economistas e políticos, tudo o que não acontece actualmente.

A primeira semana do ano ficou marcada pela elevada volatilidade dos índices, dando mote ao que será 2021.

Apesar dos novos confinamentos que assolam a Europa, do Estado de Emergência no Japão ou do encerramento da cidade de Shijiazhuang na China, no que é o pior caso de propagação do vírus desde Junho de 2020, os mercados financeiros terminam a primeira semana em máximos históricos.

A divergência entre a economia real e os principais índices bolsistas é cada vez maior, e incompreensível para a maioria da população.

O segredo está na forma como os índices são construídos, na gestão passiva e na afluência de novos investidores. Os índices deveriam, por defeito, ser representativos da economia, servir como referência para os investidores e como barómetro da economia para os economistas e políticos – tudo o que não acontece actualmente.

Com a política de taxas de juro negativas, a compra de dívida pública e privada a custo zero, o elevado nível de burocracia e de carga tributária e, em muitos países, a corrupção, é menos arriscado investir nos mercados financeiros do que num negócio, na criação de emprego e, consequentemente, na economia real.

Os próprios índices começam a refletir a desigualdade que está a ser criada pelos bancos centrais. A concentração nas maiores empresas está a distorcer a percepção do que é a economia real. Por exemplo, no caso do índice alemão, o Dax30, as sete maiores empresas representam 50% do índice, mas no caso espanhol essa percentagem sobe para 60%. Em Portugal, só o grupo EDP vale agora mais de 50 mil milhões de euros, obrigando os fundos que seguem o índice a aplicar 35% do valor que têm no grupo.

Até no caso do Nasdaq, o nível de concentração é historicamente alto, com três empresas, a Apple, a Microsoft e a Amazon a representarem 30% do índice. Ou seja, quando os investidores compram fundos passivos que replicam os índices, na verdade estão a investir nas grandes capitalizações. Este fluxo de capital para um mercado limitado de oferta, onde as grandes empresas também recompram as próprias acções, ou seja, limitam a oferta face à liquidez existente, continua a suportar os mercados.

Nunca os índices refletiram tanta disparidade entre a realidade e a finança. A entrada de novos investidores que compram empresas pelo nome, sem saber o que fazem, é alarmante e sinaliza que grandes perdas estão mesmo diante de muitos investidores. A título de exemplo, todas as empresas que têm “blockchain” no seu nome sobem, independentemente de terem ou não negócio.

Este tipo de investimento e ausência de alertas, contribuiu para o aumento da velocidade desta bolha que certamente não irá terminar bem para muitos dos investidores que agora se iniciam no mercado.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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