A dignidade adiada

Apesar do aumento previsto para a área da Saúde nos próximos quatro anos, o projecto do Hospital Central do Algarve ficou de fora dos investimentos no Orçamento. Mais uma prova cabal do esquecimento a que é votado o sul do país há décadas.

Estão previstos mais de 100 milhões de euros para o avanço de seis novos hospitais, projectados para um investimento global de 950 milhões até 2023.

Entre os novos hospitais cuja construção deve ocorrer nos próximos quatro anos encontramos o Hospital Pediátrico Integrado (CHU São João), o Hospital Lisboa Oriental, o Hospital Proximidade Seixal, o Hospital Proximidade Sintra, o Hospital Central do Alentejo e o Hospital da Madeira. O Hospital Central do Algarve, um projecto prometido há duas décadas e colocado na gaveta, foi excluído mais uma vez apesar da urgência e dos alertas feitos nos últimos anos.

Um dos alertas sobre o estado de ruptura a que chegou o Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA) surgiu em Janeiro de 2018. A equipa de enfermagem do Serviço de Urgências do CHUA denunciava numa carta dirigida ao Conselho de Administração do hospital as condições degradantes em que trabalhavam.

Além do excesso de carga horária e da falta de profissionais, situação que resulta normalmente em consequências graves para os doentes, descreveram e expuseram em fotografias o ambiente vivido na cave do hospital, um espaço sem janelas nem ventilação adequada, onde uma média de utentes muitas vezes superior a 60, podendo inclusive ultrapassar os 80 doentes numa sala com capacidade para 24, podem permanecer em macas por vários dias até serem transferidos.

A carta foi amplamente divulgada na imprensa e redes sociais, mas cumpridos dois anos não só a situação não foi resolvida como em muitos aspectos piorou. A exclusão do Hospital Central do Algarve do Orçamento do Estado para 2020, obra da maior importância para a região, é mais uma prova cabal do esquecimento a que é votado o sul do país há décadas.

Mais. Esta semana, os Serviços do Hospital de Faro reportaram faltas de material que dificultam a gestão dos internamentos e cirurgias. Lençóis e resguardos descartáveis para as camas, vestuário para doentes e fardas para os profissionais, compressas de maior dimensão no bloco operatório, entre outras. Ocorreu pelo menos um caso em que a operação foi adiada por falta de material para operar.

O Algarve é a região de Portugal com menor número de camas por habitante do país. Partindo de uma população de 442 mil habitantes, que no Verão aumenta para 1,5 milhões devido ao turismo, e um número médio de camas hospitalares de 330/100 mil habitantes (dados da Pordata), o Algarve deveria ter, no mínimo, 1.350 camas hospitalares.

Actualmente, o CHUA, única estructura hospitalar pública da região que inclui o Centro de Reabilitação do Sul, dispõe de 950 camas, aproximadamente. A região necessita da urgente construção do novo Hospital Central do Algarve – a dignidade não pode ser mais adiada.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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