A dimensão política e social da digitalização

Estamos perante uma genial metamorfose das relações de produção, em que milhões de pessoas não cobram ordenado nenhum, mas dedicam uma boa parte do seu tempo a gerar dividendos para os gigantes tecnológicos. É a economia da atenção, superficial e caricatural.

A transformação digital da economia arranca nos anos 80, quando a utilização de computadores para a coordenação interna das empresas criou as bases para a coordenação interna das empresas criou as bases para a globalização, com processos mais fluidos e automatizados que facilitaram a comunicação e a partilha de informação.

Posteriormente, a partir do início deste século, assistimos à emergência dos gigantes tecnológicos, que conseguiram ultrapassar os operadores tradicionais de telecomunicações com o lançamento das chamadas plataformas, que interligam ativos, pessoas e dados para resolver problemas de uma forma mais efetiva e, assim, criar novos mercados.

São indiscutíveis as vantagens que o “solucionismo” tecnológico tem trazido às nossas vidas, mas é também inegável que estes novos gigantes empresariais se estão a transformar em quase-monopólios que promovem subsídios cruzados na economia e criam novas formas de regulação de facto, à margem das instituições supranacionais e dos governos de cada país. Os famosos GAFA, acrónimo construído com a primeira letra das empresas tecnológicas mais poderosas (Google, Apple, Facebook e Amazon), têm atingido tal influência nas nossas vidas que existem já movimentos para promover a divisão das empresas de forma a diminuir o seu poder.

Foi o que aconteceu em 2001 com a sentença que obrigou à separação do navegador Explorer das aplicações da Microsoft, o que paradoxalmente abriu o mercado ao domínio da Google. Estas quatro empresas, referidas nalguns foros como “os quatro cavaleiros do apocalipse tecnológico”, conformariam juntas a sétima economia mundial em termos de PIB.

A título de exemplo para ilustrar o seu poder, a Apple acumula quase 80% dos lucros do setor mundial dos telemóveis, com uma quota de mercado que não atinge 15% e com um valor superior ao dos outros três gigantes tecnológicos juntos. A Amazon vende um de cada dois livros nos Estados Unidos, representa quase 45% do comércio eletrónico, é líder em todos as áreas de negócio em que participa (serviços na nuvem com AWS, assistentes de voz com Alexia) e, embora acabe de entrar na produção de conteúdos, dispõe já de um orçamento comparável ao da NBC. A Google cursa 90% de todas as buscas na Internet, o que lhe permite perfilar com grande precisão os interesses e a personalidade de cada um de nós. E, como temos descoberto através dos recentes escândalos de partilha de informação de clientes, os algoritmos da Facebook adivinham com 99% de probabilidade a partir de tão só 12 likes o nosso género e se os nossos pais se separaram quando éramos jovens.

Uma genial metamorfose das relações de produção

O impacto do controlo destas novas elites globais sobre a tecnologia e sobre a informação ultrapassa o plano económico. Nos países emergentes, o resultado da digitalização é transversalmente positivo para toda a sociedade, dada a grande redução da pobreza extrema pelo aumento do comércio internacional e do offshoring. Nos países desenvolvidos, o impacto mais notável é a polarização social entre a nova elite tecnológica e o novo “precariado”, que reedita os desafios laborais e de proteção social do proletariado do século XIX, naquela altura integrado por operários fabris e hoje mobilizado sobre uma bicicleta para distribuir comida ao domicílio.

O primeiro capitalismo, que foi mercantil, explorou uma mão de obra escrava que foi posteriormente substituída pelos assalariados do capitalismo industrial. Nesta terceira onda de capitalismo cognitivo, o empresário digital precisa de muitos menos empregados, o que cria novas tensões sociais.

Mas o impacto social desta disrupção tecnológica não se limita à diminuição dos postos de trabalho. A vantagem tecnológica da instantaneidade traduz-se numa economia “por encomenda”, onde as relações laborais estáveis têm sido trocadas por micro-transações de trabalho por dinheiro. Estamos ainda longe de perceber todas as chaves económicas e sociais deste novo modelo, mas já estamos a sentir os seus efeitos.

De forma mais alargada, hoje estamos todos a trabalhar grátis para estas plataformas, fornecendo dados e informação que são depois materializados em valor económico para os seus donos em troca de bugigangas semelhantes às utilizadas pelos escravistas para atrair os nativos antes de os escravizar. Trata-se de uma genial metamorfose das relações de produção, em que milhões de pessoas não cobram ordenado nenhum, mas dedicam uma boa parte do seu tempo a gerar dividendos para os gigantes tecnológicos. É a economia da atenção, superficial e caricatural. E é fundamental que assim continue a ser para mobilizar e manipular o maior número de pessoas possível.

Mas além da precarização do trabalho e do aproveitamento a título gratuito das massas, a transformação digital da economia e da sociedade impacta diretamente em determinados coletivos das empresas tradicionais, em que se produz também uma polarização interna vertical que prejudica particularmente as camadas intermédias.

Os novos “tecnomanagers”, que lideram empresas e departamentos, beneficiam-se das tecnologias digitais com melhor informação, libertando tempo para atividades mais criativas. No extremo oposto, os trabalhadores cuja atividade se desenvolve em contextos incertos com mudanças permanentes, como os canalizadores ou os jardineiros, veem-se ainda protegidos por essa imprevisibilidade. Restam os quadros intermédios, correia de transmissão dos processos de gestão, que são mais facilmente substituídos por processos de comunicação e de informação automatizados e, por isso, mais baratos.

Numa perspetiva social, as plataformas são os novos teares mecânicos do capitalismo cognitivo, situados não em Manchester mas em Silicon Valley. Há duas décadas, assistimos no setor das telecomunicações à aparição de operadores que, em lugar de construir infraestrutura, utilizavam de forma mais ou menos oportunista as redes existentes, com base numa legislação e num novo quadro regulatório que pretendia liberalizar o setor e promover a concorrência. Esses operadores virtuais, inicialmente locais, foram substituídos pelos gigantes da Internet, primeiro no âmbito dos serviços tradicionais, como o Skype nas comunicações de voz, e depois nas novas aplicações sociais.

O que está hoje a acontecer com as novas plataformas é uma reedição deste modelo, em que assistimos à criação de empresas de hotelaria sem hotéis ou de táxis sem carros. Como pessoa que assistiu na linha da frente à transformação do setor das telecomunicações, penalizo-me por não ter sabido antecipar os impactos da transportabilidade desse modelo a tantos outros âmbitos da economia.

As más políticas, e não os robôs, são as que tiram o trabalho das pessoas

A fatura social de todas estas mudanças é pesada, pelo que a sociedade deverá encontrar mecanismos para “refaturar” parte do seu custo aos gigantes da Internet, seja por via de uma tributação maior e mais socialmente eficaz, seja pela obrigação de investirem diretamente em novas infraestruturas sociais.

Para isso acontecer, é preciso aceitar que a transformação digital requer uma nova atitude política perante um fenómeno tão transcendental. A tecnologia nunca foi politicamente neutra porque desequilibra as relações de poder entre os agentes. O controlo da tecnologia determina como e onde se gera riqueza, como se acede aos meios de produção e como se distribuem as rendas, como ilustrado anteriormente. Nessa base, não serão os robôs que tirarão o trabalho às pessoas, serão os políticos.

A batalha comercial entre os EUA e a China não é mais que um primeiro efeito da verdadeira guerra subjacente pelo domínio das novas tecnologias, da qual as recentes proibições sobre a ZTE ou a China Mobile são também exemplo. Ambas potências acumulam hoje 65% das empresas tecnológicas de alto potencial, os chamados unicórnios, com um enfrentamento especialmente encarniçado no âmbito da inteligência artificial, onde a tecnologia chinesa parece estar a conquistar as vitórias mais significativas.

O sucesso nessa guerra determinará a evolução das nossas liberdades individuais, como demonstra a transformação do acesso à Internet na China numa “intranet nacional” muito efetiva. O mundo está numa fase de bipolaridade assimétrica em que os EUA detêm o poder militar e a China o poder económico (na última década, contribuiu com 32% do crescimento mundial e os EUA com 12%), mas ainda não sabemos quem deverá conquistar o poder da tecnologia digital.

Os riscos para a democracia do controlo digital são muito elevados. Atravessamos uma nova guerra fria de marketing político, onde empresas como a Cambridge Analytica facilitam a interferência em votações como as eleições presidenciais americanas ou o referendo do Brexit.

Ao nível local, a digitalização começa também a ter um impacto político. Embora a inteligência artificial esteja a dar os seus primeiros passos, o processo de produção, captura e processamento de dados já atingiu uma maturidade significativa. Esse desenvolvimento determina que os algoritmos do passado estejam a produzir resultados cada vez mais potentes, o que já está a favorecer os bairros mais ricos que, com melhores telefones inteligentes, geram mais e melhores dados.

Será necessária uma nova Constituição Digital?

A tecnologia nunca foi neutra e a profundidade e extensão da transformação digital exige um esforço extraordinário para acautelar os impactos indesejados. Embora adorada por tantas pessoas, a tecnologia não tem efeitos taumatúrgicos e, em lugar de um milagre, está a representar para muitos uma fatalidade.

Até agora, etiquetar os malvados era relativamente fácil. Bancos, petrolíferas ou tabaqueiras estariam entre as respostas maioritárias. Mas os novos demónios corporativos são mais difíceis de consensualizar. O que pensaríamos de um banco com 90% de quota, como a Google tem?

Passada a fase da inocência digital, resta saber quais as medidas para atenuar os efeitos negativos da digitalização. Sempre houve perdedores nas revoluções tecnológicas mas, à diferença das anteriores, nesta os perdedores têm uma voz própria, paradoxalmente graças às mesmas tecnologias que os estão a condenar.

Há quem se limite a propor um juramento hipocrático digital dos gigantes da Internet. Outros exigem uma nova carta de direitos digitais, uma espécie de constituição digital que mitigue o fosso tecnológico. Seja como for, os “velhennials” têm a obrigação de ajudar os millennials para evitar repetir os erros do passado, desta vez com uma potência tecnológica nas mãos que pode ter um impacto devastador.