A vida humana não tem preço, e só as seguradoras tipicamente envolvidas em grandes acidentes nucleares, de aviação, ou ainda de responsabilidade civil médica, é que ordinariamente fazem aquelas contas. A tragédia que decorre desde sábado em Portugal é tão avassaladora que não é aceitável fazer controlo de custos à triplicação dos extintos serviços florestais, ou à limpeza braçal, semanal, das matas, pois compensariam as consequências.

Independentemente de qualquer saldo contabilístico imediato que se possa fazer, o espelho mais imediato dos riscos de uma futura catástrofe são os seguros específicos, que, se existirem, acrescem ao preço do uso de um bem. No caso concreto, só existe um seguro específico florestal, incentivado pela Portucel Soporcel, que protege produtores florestais com mais de 1ha. Infelizmente, não existem seguros de valores aceitáveis contra incêndios de florestas para o comum proprietário, matas e animais a eles pertencentes, pois o risco torna o valor do seguro inaceitável.

Deviam ser princípios de uma economia sustentável dos recursos naturais a orientar a gestão florestal, mas infelizmente reduzimo-nos a uma gestão dos incêndios. Considerando-me eu economista com elevadas preocupações ambientais, a valorização da Vida no ecossistema é, para mim, o objetivo maior, e isso inclui cuidados de preservação, o que se deveria refletir nos mecanismos de gestão territorial de médio-longo prazo. Por isso, não me choca pensar que os seguros, ou a sua ausência, são um bom reflexo do problema. Mas, infelizmente, neste caso falamos de uma economia de muito curto prazo, concretamente de quatro anos, em nada adequada a ciclos de árvores que chegam às centenas de anos.

Nesta economia dos incêndios, entre muitas outras razões que têm sido escrutinadas estes dias, falta ainda falar-se do problema de base que é estabelecer a ligação entre os fogos e o valor da propriedade rural, florestal e urbana. Com ou sem subsídios para um bom plano florestal, apoio às limpezas, manutenção da floresta e controlo adequado dos incêndios, o que se percebe é que se as áreas em causa fossem adequadamente valorizadas através de outros aspetos que não tão-só a venda de madeira, ardida ou não, tal como pastoreio e outros ecoserviços, certamente não estaríamos perante situações de total impreparação como a que aconteceu.

O valor da floresta é de tal forma negligenciado nas contas nacionais dos países, que a única rúbrica tangencialmente relacionada são os serviços silvícolas, sendo que as perdas por incêndio só estão incluídas nas atividades agrícolas. Isto é, não iremos ver uma redução minimamente relevante no PIB em consequência destes incêndios.

Num exercício preliminar efetuado por uma aluna de Economia da Universidade do Minho, que estuda o impacto dos incêndios florestais no valor da propriedade, em 2014-2015, nos municípios portugueses, considerando o número de incêndios e área ardida, pertença à Rede Natura, percentagem de área florestal e outros aspetos, as conclusões são quase nenhumas. Se quiséssemos desenvolver o assunto sob as estratégias da Fundação para a Ciência e Tecnologia, não seríamos bem-sucedidos, pois os domínios prioritários regionais só modestamente referem floresta. Também, na Estratégia Nacional, o eixo prioritário que inclui prevenção e deteção de incêndios, não está relacionado com ordenamento de território, apesar do alinhamento com aspetos de alterações climáticas.

Em Portugal, com médias de área ardida de cerca de 69 mil ha (2006-2010) e 84 mil ha (2011-2015), com um pico em 2003 de 425mil ha, neste momento já contamos com 60mil ha ardidos em condições extremas e 64 vidas, e, contas redondas, 860 mil tCO2 emitidos (fatores de emissão de um estudo prévio da Quercus). Já que o carbono tem um preço, pode ser por aqui que comecemos a valorizar ainda mais as áreas florestais. É mais uma achega a esta fogueira de irresponsabilidades.