A Efacec só tinha botão para descer

A complexa rede utilizada por Isabel dos Santos para comprar a participação na Efacec, inclusive envolvendo o Estado angolano, levantava suspeitas e, no mínimo, recordava a exposição política da filha do ex-presidente José Eduardo dos Santos. O perigo dessa exposição tornou-se real em dezembro, quando Angola arrestou os bens da empresária.

Cortes salariais, despedimentos coletivos e rescisões, reduções de benefícios, tensões com os sindicatos. Quando um novo acionista entra para tomar conta de uma empresa que está em sarilhos e precisa de levar uma reviravolta não é raro ver estes acontecimentos.

Depois de Isabel dos Santos comprar uma posição de controlo na Efacec em 2015, não foi com grande surpresa que assistimos a uma sequência deste tipo de notícias.

A histórica empresa de engenharia e, cada vez mais, de energia e mobilidade, tinha-se ‘esticado ‘ na expansão e precisava de capital novo. Entre críticas sobre os despedimentos e alegadas pressões nas eleições para a comissão de trabalhadores, a Efacec foi colecionando alguns sucessos na forma de encomendas e regressou aos lucros.
Isabel dos Santos insiste que a empresa tem tido “um percurso de sucesso”.

Esse pode ter sido um dos resultados dos seu investimento. O outro é, sem dúvida, a situação precária em que se encontra agora uma das mais prestigiadas empresas portuguesas.

O problema não foi a estratégia de Isabel dos Santos para a empresa. O problema foi ter sido Isabel dos Santos a fazer o investimento. Sim, a empresária angolana já tinha posições de relevo em empresas como a Galp, NOS, Eurobic e BPI , mas isso não podia servir como justificação para entrar em mais uma empresa importante. O Governo de Pedro Passos Coelho deveria ter evitado esse erro, porque sabia que a situação estava mudar em Angola e colocar um ativo valioso, mesmo que a atravessar um período difícil, nas mãos de uma pessoa politicamente exposta, era perigoso.

O Governo de António Costa pode vir agora armar-se em salvador, dizendo que vai tomar as medidas que forem necessárias para proteger a empresa, que considera estratégica para o país, mas também não está isento de culpas.
Onde estava em 2016, quando Ana Gomes pediu a Bruxelas para averiguar a legalidade da compra da Efacec por Isabel dos Santos face à legislação europeia anti-branqueamento de capitais? Terá sido um dos sucessivos governos que foram coniventes com a cleptocracia em Angola? Provavelmente.

A complexa rede utilizada por Isabel dos Santos para comprar a participação na Efacec, inclusive envolvendo o Estado angolano, levantava suspeitas e, no mínimo, recordava a exposição política da filha do ex-presidente José Eduardo dos Santos.

O perigo dessa exposição tornou-se real em dezembro, quando Angola arrestou os bens da empresária, um processo que escalou com a divulgação dos ficheiros do ‘Luanda Leaks’.

A Efacec foi arrastada para a situação, para problemas graves na pior altura possível, numa pandemia que está a provocar uma enorme recessão. Mas neste caso não podemos culpar o vírus. A descida da Efacec começou em 2015, no momento em que Isabel dos Santos abriu a porta.

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