À espera da vacina, do PRR e não só

Com a espera da vacina e as vagas de infeção na UE, parece agora pouco provável que o verão de 2021 nos vá salvar. O turismo foi a nossa boia de salvação na última crise. Agora que a boia está furada, estamos metidos em sarilhos.

Este texto foi publicado originalmente no suplemento “Boletim Económico da Primavera”, que integrou o Jornal Económico de 9 de abril de 2021.

 

A economia da União Europeia (UE) está à espera. À espera da vacina: até agora, foram administradas apenas 16 doses por cada 100 europeus; muito pouco, quando comparadas com as 45 nos EUA ou as 52 do Reino Unido. Prevê-se que a vacinação acelere no segundo trimestre; só a Pfizer entregará 200 milhões de doses.

À espera do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Com o novo pacote de estímulo de Biden, os EUA já anunciaram pacotes de despesa pública de cerca de 13% do PIB desde o início da crise, ao passo que a zona euro, juntando os esforços individuais de cada país e o pacote de recuperação da Comissão, anunciou menos de metade.

O resultado é que a economia europeia contraiu quase o dobro da americana em 2020 e vai crescer pouco mais de metade em 2021. Como se não bastasse, estamos agora à espera da decisão do Tribunal Constitucional alemão, que está a avaliar a dívida comum a emitir pela Comissão Europeia no contexto do plano de recuperação. E também à espera do desfecho da chamada quarta vaga, que nas últimas semanas levou vários governos europeus, incluindo o francês, o belga e o italiano a tomar medidas estritas de confinamento.

As economias convivem mal com esperas, porque as esperas geram incerteza. Por isso, a edição de primavera do World Economic Outlook do FMI, que saiu na terça-feira, revê em baixa o crescimento na UE, contrastando com revisões em alta para os EUA e Japão, relativamente à edição de janeiro. Para Portugal, o FMI projeta um crescimento de 3,9% em 2021.

A incerteza do momento obriga-nos a ter cuidado com estas previsões e a economia portuguesa é especialmente vulnerável às esperas. Como reconhece o próprio FMI num capítulo especial dedicado às perspetivas de médio prazo, o turismo é um fator de risco, por ser especialmente afetado pela pandemia, pelo risco de contágio das fronteiras abertas e pela ligação a outros sectores de proximidade, como a restauração e o pequeno comércio, que sofrem por arrasto. Portugal é um dos países do mundo no qual o turismo causou mais perdas à economia.

A dimensão do problema não nos pode deixar descansados. Nos sectores do alojamento e turismo, mais de um euro em cada dois de crédito está abrangido por moratórias. No início de março, foi publicado o “Portugal, Balanço social 2020”, um relatório que resulta de uma parceria entre a Nova SBE e a Fundação La Caixa, no qual tive o gosto de trabalhar com a Mariana Esteves e o Bruno P. Carvalho. Nele, mostramos como os sectores da Restauração, Alojamento Turístico e Transportes, que são os mais afetados pela crise, têm mais trabalhadores com contratos temporários, menos escolarizados, com salários mais baixos do que a média nacional. E também mais mão de obra imigrante. Portanto, a crise nestes sectores atinge partes especialmente vulneráveis da população.

Com a espera da vacina e as vagas de infeção na UE, parece agora pouco provável que o verão de 2021 nos vá salvar. O turismo foi a nossa boia de salvação na última crise. Agora que a boia está furada, estamos metidos em sarilhos.

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