A esquerda contra a esquerda

Será verdade que ativistas que lutam pelo reconhecimento da dignidade de minorias não estão igualmente mobilizados pelo que afeta tanto maiorias como minorias? Não serão conciliáveis, na geometria política, as esquerdas de ativismo e as de militância partidária?

A esquerda vive dias difíceis. Perde em duas frentes. Primeiro, a esquerda do combate às desigualdades de classe, desigualdades que nunca pararam de crescer e de se agudizar, vividas como uma tendência globalmente inexorável. Segundo, perde também, e com mais estrondo, a esquerda do combate à segregação, confrontada com um programa de restauração e generalização da intolerância, respaldado num pretenso direito a mais liberdade, desde logo a de ofender e desprezar quaisquer compromissos com linguagens e condutas inclusivas, desde a mais elementar boa educação até ao respeito pela dignidade alheia.

A luta contra a segregação tem sido perdida primeiro na luta contra as palavras de segregação, mas não haja dúvidas de que a normalização nas palavras abre o caminho para a dos actos. As enormidades que ouvimos a Trump, aos nacionalistas europeus e as brutalidades que ouvimos agora a Bolsonaro antecipam em fantasia uma passagem ao acto que a república global das redes sociais dissemina por toda a parte à espera das próximas eleições.

Para não facilitar as coisas, o fracasso de cada uma destas esquerdas tem movido uma acusação à outra. A que denuncia o regresso das velhas segregações aponta à outra um compromisso ínvio com agendas discriminatórias ao delas não se demarcar com clareza ou, mudando palavras e argumentos, acabando por perfilhar teses demasiado próximas. E essa esquerda, que denuncia uma sociedade de desigualdades imparáveis, de novo uma sociedade de classes sem classe média, acusa a outra de fazer o jogo do neoliberalismo e de perder de vista o todo social, enclausurando-se em identidades e microidentidades.  E até de o fazer conforme a conveniência, se estiver, na repartição da desigualdade, mais na parte que domina do que na parte dominada pela escassez de rendimento.

Quanto maior o fracasso, traduzido em maiores recuos nas políticas igualitárias e faltas de reconhecimento da dignidade, mais este jogo de recriminações sobe a parada, numa escalada politicamente suicida.

Talvez alguma esquerda identitária, fixada na sua causa, perca de vista aquilo que é transversal a todas as lutas por causas. Mas será verdade que activistas que lutam pelo reconhecimento da dignidade de minorias não estão igualmente mobilizados pelo que afecta tanto maiorias como minorias? Não serão conciliáveis, na geometria política, as esquerdas de activismo e as de militância partidária? E será que o que se dá por transversal nas lutas sociais é mesmo o que deve ser dado por mais transversal?

É muito pouco evidente que a luta de classes seja a mãe de todas as lutas sociais, sequer o seu maior denominador comum. A dominação de género tem muito mais idade do que o capitalismo, tem a idade de toda a história e são muitas as formas da sua persistência social no tempo presente. Por exemplo, sabe-se que as políticas de austeridade implementadas em Portugal no início da década agravaram as desigualdades, mas também que atingiram mais as mulheres do que os homens.

A esquerda que clama por não se perder o ponto de vista do todo, e que entende que o problema é mesmo o capitalismo, não tem evitado adoptar um discurso patriota, de regresso do Estado como irrenunciável soberania nacional, política, económica e territorial, com moeda própria, fronteiras fechadas, mais tarde ou mais cedo farpadas, enfim, toda uma linha de acção que não encontra hostilidade em nacionalismos reemergentes. E esta mesma esquerda convive demasiado bem com a ascensão do politicamente incorrecto apesar de saber que essa é uma porta aberta para a restauração da segregação. Que sentido faz desmerecer a importância política do alarme e denúncia do regresso de uma linguagem de segregação?

Não é só inépcia. Há de facto um problema. E que se agrava diante da percepção de que as duas contrapartidas da direita, a nacionalista e iliberal, por um lado, e a neoliberal do mercado global, por outro, não estão tão desentendidas e não se boicotam tão abertamente. Um exemplo de há dias: com espanto mas convencidos pela acutilância, constata-se que a Fitch, uma das mais influentes agências de rating no mercado global, anuncia urbi et orbi, em vésperas eleitorais, melhores perspectivas económicas para o Brasil se o vencedor das eleições deste domingo for Bolsonaro. Que importa haver medo, que importa estarem comprometidas a paz social e a normalidade da vida democrática?

O que se passa, então, com a esquerda mais tradicional? Muita é dogmática, tutelar e esquemática. Talvez por ter uma concepção da política demasiado teórica, como se a política fosse sempre apenas o campo de demonstração de uma filosofia política ou de uma teoria social. Ter razão não tem o mesmo peso que fazer certo, para muita esquerda de velha militância.

O esquematismo rigidifica a compreensão política da realidade. Por exemplo, ninguém à esquerda nega as alterações climáticas, o aquecimento global, a influência humana naqueles fenómenos, nem sequer se nega o risco real de ser ultrapassado o ponto de não retorno que conduzirá à inabitabilidade do planeta e, contudo, ninguém, ou quase ninguém, na esquerda militante abdica de continuar a prometer mais crescimento, mais desenvolvimento, mais de tudo.

O atraso de um enfrentamento suficientemente forte, e  suficientemente esclarecido, da questão ecológica em todas as suas dimensões tem tudo que ver com um esquematismo. A questão ecológica tem sido sobretudo mais um exemplo na irritante vontade de listar causas festivamente celebradas como dando razão à luta política, mas subordinadas a uma hierarquia de prioridades.

É assim, por exemplo, quando se diz que as ameaças ambientais se explicam perfeitamente dentro do capitalismo e que vencendo-o logo se resolvem aquelas, como se o problema estivesse na dispersão de forças, na falta de um vector comum aglutinador. Mas, precisamente, esse esquema de raciocínio é o que faz equivaler a luta ecológica a um análogo de lutas das minorias e identidades, por sua vez reduzidas ao estatuto de exemplos parcelares da luta maior titânica que explicaria todas as outras. Assim não se vai lá.

Mas as esquerdas não eram assim no passado? Não se dividiam em mil tendências belicosas como ironizam os Monty Python em “A vida de Brian”? Sim, mas a pergunta a fazer é outra, não sobre como a esquerda é, mas como a realidade se transformou e como a esquerda foi, ou não, capaz de detectar essa mudança e a partir dela redefinir a sua actuação.

Só uma esquerda iludida com a ideia de que tem uma identidade acaba por se deixar capturar por uma crise de identidade. Aquela ilusão tem inegáveis vantagens, por exemplo o conforto, até material, do estatuto. Ser de esquerda já valeu mais, mas, de muitas formas, granjeia ainda reconhecimento e não pouco em Portugal, sobretudo tendo alguma linha genealógica com o passado de resistência.

Mas o que é que mudou? Pelo menos duas mudanças transformaram radicalmente o próprio meio em que a esquerda pensa e age, sem que ela disso se apercebesse. Por um lado, o espaço público, ou aquilo em que se transformou, deixou de valorizar o escrutínio da verdade e das razões.

Num tempo de pós-verdade, importante é ser persuasivo, havendo meios para isso muito mais eficazes do que ter razão.  Por outro lado, a realidade social evoluiu num sentido fragmentador, fortemente individualista, atomizando sujeitos sociais, desligando-os de uma esfera colectiva, seja no trabalho, seja na comunidade, seja mesmo na relação com o mundo. Já sabíamos disto há décadas. Mas, não sabíamos como isso afectara o discurso da esquerda.

Mark Lilla, um crítico severo das esquerdas identitárias nos Estados Unidos diz que estas se conformaram ao conceberem os sujeitos sociais como partículas elementares. Nas suas palavras, “a identidade não é o futuro da esquerda, não é uma força hostil ao neoliberalismo. A identidade é a doutrina de Reagan adaptada à medida dos esquerdistas.” Lilla defende um retorno à política de cidadãos unidos, “nós o povo”, simplesmente esquece-se de um pequeno grande pormenor: a vontade política de segregação está em franca expansão, é identitarista e só a esquerda das identidades lhe responde directamente. O resto, fora excessos que não podem ser avaliados de forma desproporcionada, é boicote da esquerda à esquerda.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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