“A Europa é uma mulher”

As mulheres têm de tomar o seu lugar mesmo sem certezas de o poderem desempenhar na perfeição. Tal como os homens o fazem sem complexos e com convicção. Chega de modéstia e insegurança.

Vou ter saudades de Donald Tusk e destas suas frases. Da emoção com que vive as vitórias e derrotas da Europa. De como pôs o Reino Unido em sentido quando este resolveu brincar ao Brexit. E esta semana foi de vitória: duas mulheres pontificando nos lugares mais importantes da Europa e do Euro. “A Europa, no fim de contas, é uma mulher”, disse Tusk, numa referência mitológica bem-humorada.

Mais uma vez, Christine Lagarde inaugura um mandato feminino numa das mais importantes instituições financeiras do mundo: primeiro o FMI e agora o Banco Central Europeu. Da Alemanha, chega Ursula Von Der Leyen, próxima de Merkel, e isso é bom para a Europa. Uma mulher que segue a linha da chanceler em questões tão essenciais como a abertura da Europa aos migrantes. Afinal, disse Tusk congratulando-se com estas escolhas, a Europa é uma mulher.

O discurso politicamente correto seria o de apontar o alinhamento óbvio das capacidades e experiência destas duas mulheres com os cargos que vão agora ocupar. É o discurso do mérito e espero poder regressar a ele: significa que ainda estarei viva quando a questão do género deixar de ser um critério discutido em praça pública para escolher políticos, empresários, colaboradores. Espero viver para ver esse mundo ideal em que o género não releve nas decisões de liderança, exceto para enaltecer aquilo que nos distingue e complementa.

Mas não é ainda isso que uma mulher sente quando assiste a estas duas escolhas. É mesmo um sentimento de vitória. Arrisco dizer que é também, ainda que apenas em parte, o resultado desta onda de luta pela igualdade de género que colocou o tema na agenda politica e que obrigou a ponderar este critério nestas escolhas. E só por isso, mesmo repudiando os discursos histéricos e até belicosos, vale a pena falar de igualdade de género em voz alta. Sempre. Cada um à sua escala, nas suas organizações, em casa, nas escolas.

A esmagadora maioria das mulheres que alcançou cargos de topo nas organizações dirá, sobretudo quando lá chegam, que foi o mérito que as colocou lá e que ao longo do seu percurso limitaram-se a ser tão boas quanto os homens. É o discurso politicamente correto de quem vence essa corrida.

Há uma mulher que não o faz. Pelo menos uma. Ana Botín. Privilegiada por natureza – filha de Emílio Botín – tomou por luta pessoal a causa da igualdade de género nas empresas. E esta semana abordou o tema de um ângulo pouco vulgar, citando um estudo (que não identifica): as mulheres só aceitam cargos para os quais se sentem 100% preparadas, ao passo que os homens os aceitam quando estão preparados apenas a 60%. A mensagem é inspiradora. Lagarde e Von Der Leyen estão preparadas a 100% mas o trabalho das mulheres pela sua afirmação começa em aceitar os 60% e em tomare o seu lugar sem certezas de o poderem desempenhar na perfeição. Tal como os homens que o fazem sem complexos e com convicção. Chega de modéstia e insegurança.

A segunda boa notícia da semana é que os partidos pró-Brexit viraram as costas ao hino europeu quando se escolheu o novo executivo da União. E isso deve encher-nos de esperança porque a Europa ainda é moderada. E esta semana, a Europa não é uma, mas sim duas mulheres.

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