A Europa em guerra

Se queremos continuar a acolher povos de todas as culturas, teremos de explicar muito claramente que o nosso respeito por diferentes culturas nunca poderá passar pela subalternização da nossa.

A Revolução Francesa inaugurou em 1789 o modelo político do que viria a ser a Europa ocidental e continental. Ainda que na prática as coisas tenham sido bem diferentes, e a pureza de intenções uma extravagância restrita a meia dúzia de idealistas úteis, a Europa pós 1789 viria a ser diferente daquela que o mundo conhecera antes.

O primado da separação de poderes de Montesquieu, a fractura com a Igreja protagonizada pelo sanguinário Robespierre e pelos jacobinos, a violência do corte que Danton e Marat também protagonizaram, levaram a que nada voltasse a ser como dantes. Do anti-clericalismo revolucionário de Robespierre e dos jacobinos, a França evoluiria para a laicidade de Jules Ferry já nos finais do século XIX. Igreja e Estado viriam a ter protocolos de articulação, mas nunca mais interfeririam na esfera um do outro na Europa.

Com um processo histórico e político diferente, apesar da relação especial entre a Coroa Britânica e os anglicanos, os anglo-saxónicos praticam rigorosamente esta separação na prática dos assuntos da Igreja e do Estado. Tendo, há mais de dois mil anos, Cristo dito que a Deus deve ser deixado o que é de Deus, e a César o que é de César, percebe-se facilmente que, independentemente do modo como se atinge, a separação é saudável para ambos.

Coisa diferente da separação acima enunciada, é a matriz cultural e espiritual dos povos. O povo francês não mudou com a revolução, mudou apenas a organização do Estado. Os povos europeus vêm de muito longe e são o que são porque se formaram sob a matriz judaico-cristã. Independentemente de revoluções, da pressão jacobina que dura até hoje, de agendas ideológicas revisionistas à direita ou à esquerda, o cristianismo não se erodiu do centro da alma europeia.

Não é por ter sido ideologicamente afastado formalmente da Constituição Europeia, que o cristianismo deixou de fazer parte profunda do que intrinsecamente somos, independentemente da nossa relação pessoal com a Igreja. Temos uma cultura, um código de valores e uma tradição que, vindos directamente dos ensinamentos de Cristo, são os alicerces mais fortes da civilização que mostramos ao mundo em laicidade.

Esta aparentemente complexa relação, a forma como os cristãos apoiam a laicidade do Estado, a forma como as Igrejas cristãs se relacionam com a sociedade e o Estado, são prova de uma liberdade extraordinária, só possível em quem confia e se sente seguro nessa confiança.

Para todos os que vivem, ou se sentem de alguma forma ligados a Estados teocráticos e a práticas de fé que vivem da literalidade e da limitação da liberdade, o conceito europeu é facilmente visto como uma ameaça e, acima de tudo, impuro. Não nos vale a pena abrir e acolher uma diferença que recusa essa abertura e acolhimento. Não nos vale a pena tratar como amigo quem nos trata como inimigo. Poderá não ser nos termos rigorosos do Huntington, mas há um choque de civilizações em curso. A dramática diferença, é que já não há o Mediterrâneo como fronteira.

A fronteira é incerta e está definitivamente no território europeu, ou seja, a Europa social é hoje significativamente menor do que a Europa territorial. Há demasiadas áreas de território europeu onde a soberania europeia já não é exercida, onde a cultura europeia já não é matricial, onde novas realidades sociais, políticas e religiosas se desenvolvem rapidamente em aberto antagonismo bélico com a Europa. A abertura europeia, sinal de civilização e progresso humano, foi ensombrada pelo inimigo.

O rol de atentados terroristas na Europa é tristemente longo, bastará pegarmos nos mais recentes, nos dos últimos dias. Samuel Paty ignominiosamente assassinado em Paris, por ensinar aos seus alunos o valor da liberdade e da diversidade de pensamento. Os fieis que rezavam na Catedral de Notre Dame de Nice, barbaramente assassinados por professarem a sua fé, uma fé feita de paz e caridade, de amor ao próximo. Dois atentados, com idênticos propósitos, felizmente abortados, em Avignon e Lyon, no mesmo dia. Por fim, o horror em Viena, seguindo a metodologia dos terroristas franceses. Se os Cristão são o povo mais perseguido em todo o mundo, do Médio Oriente à China, hoje são também perseguidos em sua própria casa.

A Europa farol civilizacional, se o quer continuar a ser, terá de repensar profundamente a sua relação com o que lhe é contrário, sob pena de se suicidar ao abrigo dos valores que professa. Se queremos continuar a ser uma sociedade de liberdade, de valores e de partilha, temos de assegurar a sua sustentabilidade. Se queremos continuar a acolher povos de todas as culturas, teremos de explicar muito claramente que o nosso respeito por diferentes culturas nunca poderá passar pela subalternização da nossa.

Se queremos continuar a receber com humanismo povos de diferentes religiões, teremos de explicar muito bem que o respeito pela fé e prática de quem nos procura nunca poderá colidir com os hábitos da nossa sociedade. As madrassas não podem continuar a ser células de formação terrorista, o Islão de paz tem de ser convocado para a linha da frente na condenação e combate ao islão terrorista. Teremos de continuar de portas abertas a quem quer viver connosco e de portas trancadas a quem nos vem destruir. Isto implica segurança, informação e escrutínio; implica fronteira e controlo.

O grande desafio será manter a nossa integridade, os valores que nos definem, sem cair numa guerra cega contra o diferente, separando o trigo do joio. Será perceber a profunda riqueza da multiculturalidade, distinguindo-a de um neocolonialismo agressivo. Macron, em plena guerra no território francês, teve a coragem de avançar com algumas medidas, provavelmente insuficientes, mas que representam um início. Falta uma grande concertação europeia neste capítulo, tão urgente quanto importante.

Por fim, uma palavra sobre o caso português, felizmente ainda à parte desta realidade. A tradição multicultural de Portugal tem garantido uma convivência pacífica entre as diferentes comunidades. Primeiro, há uma matriz cultural e espiritual partilhada durante séculos, uma portugalidade que a todos une. Depois, no caso particular do Islão, há uma tradição social e humana de paz e concórdia na comunidade islâmica portuguesa, uma herança fortíssima com raízes no antigo ultramar português, e que líderes comunitários de grande carisma e valor têm sabido perpetuar, expurgando tudo o que ameace esta harmonia.

É da maior importância que saibamos alimentar esta paz, sabendo em cada momento discernir a questão europeia do caso português, não o colocando em risco com populismos irresponsáveis.

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