Dave Bowman: Open the pod bay doors, HAL.

HAL: I’m sorry, Dave. I’m afraid I can’t do that.

Dave Bowman: What’s the problem?

HAL: I think you know what the problem is just as well as I do. (…)

Dave Bowman: I don’t know what you’re talking about, HAL.

HAL: I know that you and Frank were planning to disconnect me, and I’m afraid that’s something I cannot allow to happen.

“2001: A Space Odyssey”

 

Este é um dos mais celebrados diálogos da história do cinema e tem a particularidade de retratar o conflito entre uma máquina com inteligência própria, HAL 9000, e um ser humano, o astronauta Dave Bowman. Trata-se de uma cena emblemática do filme “2001: Odisseia no espaço”, realizado por Stanley Kubrick em 1968, a partir de um argumento que o cineasta redigiu com o cientista e escritor Arthur C. Clarke, autor do romance homónimo. Para lá dos seus imperecíveis méritos cinematográficos, a obra de Kubrick ganhou atualidade e presciência com o advento da Inteligência Artificial (IA).

O risco de as máquinas ganharem vida própria e a criatura fugir ao controlo do criador, como na história de Frankenstein, é frequentemente evocado quando se fala do vertiginoso progresso da IA. A possibilidade de desenvolver máquinas sencientes – ou seja, com sensações iguais às humanas – já não é mera ficção científica. Há tecnólogos que admitem que os modelos de IA estão muito perto de adquirir consciência e um engenheiro da Google, Blake Lemoine, acredita mesmo que o chatbot LaMDA, desenvolvido pela empresa, já é uma máquina pensante e consciente.

Por enquanto, os modelos de IA dependem do reconhecimento de padrões, sem a interferência de emoções, como os humanos. Ora, como provou o neurocientista António Damásio, as emoções desempenham um papel crucial no raciocínio e na tomada de decisões. Não sendo sencientes, as máquinas de IA têm essa desvantagem na execução de funções que simulam a inteligência humana. Mas até quando? Robôs com consciência, como vemos nos filmes Sci-Fi, podem estar próximos, com a IA a suplantar a inteligência humana.

Tudo isto não passa, por ora, de especulação. Mas é cada vez mais forte a pressão para que as empresas tecnológicas desenvolvam os seus modelos de IA com maior transparência, para permitir o escrutínio público, e com maior prudência, para que não sejam dados passos indesejados e irreversíveis. Há um consenso generalizado em torno das virtudes e potencialidades da IA, sem que isso signifique uma menor perceção das suas ameaças. Muitas delas são já realidade, como a violação de dados, o desrespeito pela privacidade, a cibercriminalidade, a discriminação algorítmica ou a manipulação e desinformação.

Não obstante todas as questões securitárias, ético-morais, sociais e outras que a IA levanta hoje e poderá levantar mais adiante, o desenvolvimento desta tecnologia é imparável. Podemos e devemos exigir mais consciência, transparência e cautela, mas travar o progresso da IA afigura-se tão infrutífero como tentar segurar o vento com as mãos. Parece-me mais sensato e pragmático minimizar os riscos da IA, sem deixar de impulsionar a sua expansão enquanto ferramenta para um futuro com mais prosperidade e bem-estar.

Nova vida para as empresas

Uma certeza já temos: a IA está a transformar a forma como as empresas desenvolvem as cadeias de valor, gerem os modelos de negócio, definem planos e estratégias e competem no mercado. A introdução desta tecnologia tem sido paulatina e, em geral, com resultados efetivos: maior eficiência operacional, poupança de custos, decisões mais informadas, bens e serviços inovadores e melhor gestão de clientes, dados, logística, vendas e marketing. O resultado de tudo isto pode resumir-se em mais produtividade e competitividade, assim como num maior potencial de inovação.

Claro que a IA, tal como todas as outras tecnologias, não é infalível. Muitas empresas não alcançam o retorno desejado com os seus projetos de IA, falhando no propósito de otimizar e escalar o negócio. Para que o investimento nesta tecnologia resulte de facto, as empresas devem começar por identificar claramente os riscos e oportunidades abertas pela IA. Essa identificação é essencial para saber que tarefas ganham em ser automatizadas, quais as que melhoram com o apoio da IA e quais as que devem continuar a ser realizadas por profissionais.

A D9+, aliança informal composta pelos Estados-membros da UE frontrunners da transformação digital, tem defendido uma aposta assertiva dos 27 na IA. Ainda recentemente, numa reunião ministerial em Lisboa durante a presidência portuguesa da aliança, foi dito que, se os objetivos da D9+ para a adoção em larga escala de IA generativa na Europa forem alcançados, isso terá um impacto de 8% no PIB dos 27, em dez anos. Esse crescimento do produto resultaria sobretudo do aumento da produtividade, do reemprego e do tempo livre. Mas tudo depende do ritmo de adoção da IA, bem como dos investimentos e políticas europeias para a transformação digital.

Europa ao ralenti

A Europa avança vagarosamente na incorporação da IA no tecido empresarial, sobretudo por comparação com os EUA e as potências asiáticas. A economia americana cresce, já hoje, a reboque dos gigantescos investimentos em IA, que fazem aquecer a bolsa e têm um efeito de arrastamento noutros setores. Os fabulosos retornos bolsistas das big techs americanas levam, inclusivamente, a que se especule sobre um possível remake da bolha das dotcom dos anos 90.

Para a Europa se aproximar dos EUA, vão ser necessários investimentos massivos em inovação, digitalização, IA e competências digitais. Convém, desde logo, garantir infraestruturas digitais mais robustas e interoperáveis (redes 5G/6G, computação em nuvem e edge, centros de dados, etc.). Em paralelo, será preciso reforçar as redes elétricas, modernizando as infraestruturas e melhorando a capacidade de transporte transfronteiriço. Se não avançar rapidamente na eletrificação, a Europa terá sérias dificuldades para alimentar os centros de dados de IA.

Importa mexer também na regulação das tecnologias emergentes, de forma a criar um ambiente de negócios favorável à inovação e empreendedorismo. Já sabemos que a Europa deve melhorar o funcionamento do mercado único, premissa que é válida também para o setor tecnológico. O crescimento deste setor crítico depende muito da simplificação e harmonização do enquadramento legislativo da UE para o digital, a IA e os dados. Há que evitar a fragmentação do mercado digital europeu, circunstância que retarda a adoção de tecnologias e o crescimento das empresas high-tech.

Simultaneamente, é fundamental capacitar e dinamizar o mercado de capitais europeu. As empresas digitais (startups e scaleups) precisam de capital de risco para crescer, atrair talento e competir no mercado global, bem como de políticas e incentivos públicos adequados à sua natureza disruptiva. É inadmissível que as empresas europeias de ponta tenham, muitas vezes, de procurar financiamento nos EUA e acabem por sediar aí os seus centros de competências.

Mas também a indústria europeia carece de investimento público e privado para acompanhar a revolução 4.0. É crucial que a Europa reforce a sua capacidade industrial em áreas críticas como os semicondutores, a IA, a computação quântica, a biotecnologia, os novos materiais, as telecomunicações ou os veículos não tripulados. Em todas estas áreas, a UE deve ser autónoma e estar na fronteira do conhecimento.

Não é exagero afirmar que a sobrevivência do projeto europeu depende da sua soberania tecnológica. Como defende o tecnólogo Bruno Maçães, a geopolítica do futuro será decidida por quem definir as regras do mundo digital. A Europa tem de ter uma palavra a dizer nesse mundo digital, sob pena de acentuar a sua irrelevância geopolítica e comprometer a sua autonomia estratégica. Por paradoxal que pareça, a maior consciência ética da UE em relação às tecnologias pode ser um trunfo importante, ao permitir uma diferenciação em relação à estratégia dos EUA e uma IA mais direcionada para a produtividade e competitividade, a eficiência do setor público, o empoderamento dos cidadãos e o reforço da democracia.