A falácia da desigualdade

Os empregos não importam no número, importam na qualidade da retribuição, daí que prefira 50 postos de trabalho a ganhar 2.500 euros/mês do que 500 a receber 600 euros/mês.

A desigualdade é uma das principais bandeiras políticas da actualidade, por isso mesmo é também uma das mais usurpadas pelos populistas, oportunistas e demagogos na caça ao voto, reconhecendo-a como a génese de todo o mal no mundo. Sejamos claros, o universo em si é composto por desigualdade. A natureza e o ser humano são, em específico compostos por desigualdade. Não há ninguém igual nos seus gostos, capacidades, ideias, opiniões, gestos, opções e acções.

É, aliás, a mistura sem fronteiras dessa desigualdade, apelidada de diversidade, que faz o mundo avançar a um ritmo nunca antes alcançado. Seja pela aprendizagem do contacto com novas realidades, pelo suplantar de nós próprios para corrigir desigualdades que tenhamos em relação à concorrência ou a procura pela união com outros para conseguir suprir o desnível na disputa com um adversário – a condição essencial que a desigualdade assume no progresso é inequívoca.

Condição essa presente na expressão, “todos diferentes, todos iguais”. Mas então que igualdade é esta? Será a igualdade nos direitos? Haverá sequer tal premissa, apesar de constitucionalmente previsto? O que são direitos, se não o direito de pensar, agir e ser?

Acredita verdadeiramente que tem os mesmos direitos que o seu vizinho? Ou que um político? Não, não tem. Poderá, em teoria, ter alguns direitos fundamentais, mas no que interessa, na prática, os direitos são diferentes para todos nós, seja pela capacidade de os exercer, seja pelos cargos que ocupa, porque no final do dia, um direito que não se pode praticar por incapacidade – financeira por exemplo – é um direito etéreo, nomeadamente o direito a uma justiça justa. Hoje em dia,  quase nem sequer direito de acesso à justiça, quanto mais capacidade para contratar um profissional competente para arguir o seu caso.

A questão mais discutida e vilipendiada do tema da desigualdade é a dos rendimentos/riqueza. Argumenta-se com o tal genérico “todos iguais” quando, na realidade, o que está em causa é a justeza. As mulheres não devem ganhar o mesmo que os homens nem que as outras mulheres, ou os homens o mesmo que os outros homens, porque a remuneração não deve ser por género, mas sim por mérito.

Invoca-se quase sempre ordenado igual para trabalho igual, contudo ninguém faz o mesmo trabalho que o(a) colega. É virtualmente impossível. Até se pode fazer o mesmo número de horas ou atingir o mesmo objectivo, mas fazer tudo exactamente igual? Com a mesma produtividade, com a mesma criação de maior valor acrescentado para a empresa?  Não é possível e mesmo que isso signifique uns meros euros de diferença no ordenado, numa hipotética componente variável da retribuição, é algo que beneficiava a todos, porque puxa pela excelência e reprime a estaticidade.

Uma das maiores falácias é a de que a desigualdade per se é a causa principal do mal-estar social, da pobreza e afins. Isso é, no mínimo, manipulador.

A Noruega é regularmente o país com melhor qualidade de vida na OCDE, sendo acompanhada no top pela Dinamarca e Holanda. Contudo, e talvez surpreendentemente, este dois últimos são o terceiro e segundo países onde os 60% de cidadãos com menos posses detêm menor percentagem de riqueza. Nestes casos até com um património líquido negativo de -4%, ao passo que os 10% mais ricos detêm 64% e 68% da riqueza. Na Noruega o rácio é de 7% para 51%. Por outro lado, o país com menos “desigualdade”  é a República Eslovaca, que é dos que mais pobres tem abaixo da linha da pobreza (metade do rendimento médio da população) e onde a qualidade de vida é sofrível.

Então se a questão da qualidade de vida não está ligada à desigualdade entre os que mais têm e os de menos posses, qual é afinal o âmago da questão? Simples, o que importa não é quanto um ganha mais que o outro, mas quanto aufere o que menos recebe, porque a partir de um dado montante a diferença na qualidade de vida é irrisória.

Por exemplo, o que é que conseguiria melhorar na sua vida se ganhasse 500.000 euros/mês em vez de 5.000/mês? Um carro novo? Uma casa nova? Um iate? Tudo bens materiais… Teria uma melhor qualidade de vida? Provavelmente, mas onde a diferença se faz sentir é quando uma pessoa recebe 5.000/euros mês em vez de 500/mês. Aí sim, uma menor desigualdade de valores provoca uma enormíssima diferença na qualidade de vida, e é por isso que naqueles países que referi a questão não está na diferença de posses, mas nas posses dos que menos têm.

No caso da Noruega, Dinamarca e Holanda, o que os segundos têm dá-lhes para manter um dos melhores níveis de qualidade de vida do mundo e é isso que devemos fomentar: aumentar os rendimentos mais baixos, não por luta de classes, mas pela criação de empregos com maior valor acrescentado, que permitam aumentar os rendimentos baixos para valores condizentes com uma vida humana digna.

Os empregos não importam no número, importam na qualidade da retribuição, daí que prefira 50 postos de trabalho a ganhar 2.500 euros/mês do que 500 a receber 600 euros/mês. O Estado, porém, tende a incentivar os segundos porque isso dá mais votos, quando, na realidade, os deveria repudiar.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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