A família

Ao não existir uma maior integração entre as empresas dos diversos países, perde-se a cola necessária para manter um projecto vivo, se é que ele existe para além dos interesses familiares.

As diferenças entre a realidade percepcionada diariamente e as notícias parecem cada vez mais distantes. O fenómeno das notícias falsas, está a dar lugar às notícias falaciosas.

À medida que se aproximam as eleições europeias iremos ter mais clara esta distinção. As notícias produzidas pelos governos e partidos políticos são de tal ordem de grandeza que não é possível ao eleitor aferir o que é realidade ou mentira. As várias formas de noticiar um acontecimento, como por exemplo o da dívida pública, que cresceu em volume mas diminuiu em percentagem do PIB, não facilitam a compreensão da realidade económica. Nem tampouco é possível certificar nem validar as quantidades de promessas anunciadas e cumpridas, quando, um número cada vez maior de promessas é decidido à mesa de jantar.

Este tempo de mudança acelerada deixa pouco tempo para pensar e muito para reagir, porque quem não reage perde. O fenómeno da informação nas redes sociais é revolucionário, mas tem como consequência uma dessensibilização do que é importante e do que é acessório. Um exemplo é a banalidade que se tornou nomear familiares para governos ou cargos que devem estar acima de qualquer suspeita, e quando não são anunciadas medidas de mitigação de possíveis conflitos de interesse nas decisões que possam existir.

Na esfera europeia, e depois de muita conversa e acordos nos bastidores, a fusão entre Deutsche Bank e Commerzbank parece avançar, com muitos despedimentos pelo caminho. Disse o governo alemão que são as empresas privadas que terão de se entender, tentando afastar-se de qualquer resultado. O mesmo  governo que aprovou uma reforma bancária que deveria evitar a criação de instituições grandes demais para falir, para as quais ainda não existe nenhum mecanismo seguro de apoio, e que evita tocar nas Caixas alemãs – sendo que essas sim tentam a todo o custo fundir-se, para manter os seus poderes regionais.

A Europa dos experimentalismos continua, desta vez a criar gigantes na banca. Não foi certamente a fusão das Caixas espanholas que salvou o seu sistema financeiro, mas sim o dinheiro que foi necessário injectar, quer pelos inúmeros accionistas e obrigacionistas que perderam todas as suas poupanças, quer pelo próprio Estado. Querer fazer acreditar que a fusão irá resolver um problema no sector financeiro, quando os bancos precisam de capital, de eficiência e de se adaptarem a uma nova realidade tecnológica, é outra notícia para nos embalar.

Os países da zona euro deviam estar preocupados em criar verdadeiros campeões europeus, que pudessem beneficiar os consumidores através das sinergias de proveitos e custos, como, por exemplo, ao nível dos transportes, energia, distribuição, telecomunicações. É difícil imaginar o futuro da zona euro colado apenas a uma moeda. Ao não existir uma maior integração entre as empresas dos diversos países, perde-se a cola necessária para manter um projecto vivo, se é que ele existe para além dos interesses familiares. Haja coragem.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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