A força das democracias reside nas instituições

O que aconteceu com Trump confirma aquilo que a História já tinha demonstrado: nenhum extremista conseguirá destruir a democracia, a menos que os outros políticos, os militares, os tribunais, os jornalistas e a restante sociedade civil dela desistam.

A democracia é o pior sistema político, se excluirmos todos os outros, como dizia Churchill. Mas isto não se deve ao facto de ser o sistema de governo mais eficaz, menos corrupto ou com uma melhor gestão das contas públicas. Pelo contrário, a democracia pode ter muitos problemas e até ser menos eficaz do que algumas ditaduras, em relação a alguns destes temas.

Ainda assim, a democracia supera todos os outros sistemas políticos jamais experimentados, porque é o único sistema que permite a alternância pacífica no poder entre diferentes forças políticas, no respeito pelos direitos e liberdades dos cidadãos.

A democracia não promete o melhor governo, nem a construção de um mundo perfeito, mas assegura que possamos substituir os nossos governantes se não estivermos satisfeitos com a sua prestação, sem necessidade de nos matarmos uns aos outros. É um sistema que visa construir o melhor dos mundos possíveis e não uma qualquer utopia, de esquerda ou de direita, que exija o sacrifício das liberdades e direitos individuais.

Esta característica da democracia constitui, ao mesmo tempo, um ponto fraco, porque em tempos de crise e de incerteza não falta quem se sinta atraído por soluções alternativas que prometem fazer tábua rasa do que existe, para em cima disso poder criar um mundo alegadamente perfeito. O que aconteceu nos EUA esta semana constitui uma demonstração desta tendência e é uma chamada de atenção muito séria para o perigo do populismo.

Porém, há também uma conclusão positiva a retirar. A forma como fracassaram todas as tentativas de Trump para se manter no poder demonstra como o mais importante, para defender a democracia, é ter instituições democráticas sólidas. Se as instituições forem fortes, nenhum político extremista será bem sucedido, por muito caos que tente criar. No final, Trump foi travado pelo seu próprio partido, porque os líderes republicanos compreenderam que apoiar o presidente na sua cruzada insensata destruiria o sistema democrático. De igual modo, os militares recusaram intervir.

O que aconteceu com Trump confirma aquilo que a História já tinha demonstrado: nenhum extremista conseguirá destruir a democracia, a menos que os outros políticos, os militares, os tribunais, os jornalistas e a restante sociedade civil dela desistam.

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