A gaiola das loucas

As autarquias de Moita e Seixal, afetadas ambientalmente pelo projeto, têm contestado a construção do aeroporto complementar de Lisboa no Montijo por causa dos fortíssimos impactos negativos sobre as populações.

A associação para a defesa das aves da Holanda, a Vogelbescherming Nederland, em parceria com a Organização Não Governamental BirdLife Europe, promoveu um abaixo-assinado contra o novo aeroporto no Montijo. Com o título “Maçarico Sim! Aeroporto Não!”, e um texto crítico e arrasador para o projeto, reuniu 27 mil assinaturas em pouco tempo.

O abaixo-assinado tem como objetivo proteger as centenas de milhares de aves do estuário do rio Tejo e em particular a espécie maçarico-de-bico-direito (Limosa limosa) que é a ave nacional da Holanda, país por onde passam anualmente cerca de 85% dos animais desta espécie. As aves passam o Inverno na África Ocidental, perto da Serra Leoa e Guiné, e migram até à Holanda para se reproduzirem, passando por Portugal e Espanha, parando perto de Lisboa, na área do estuário do Tejo. O projeto para construir o aeroporto no Montijo afetará não apenas os maçaricos como outras centenas de milhares de aves que passam pela zona.

Resumindo e concluindo, os holandeses estão mais preocupados e já fizeram mais em prol das nossas áreas protegidas do que os portugueses. Para provar esse ponto, Alberto Souto de Miranda, secretário de Estado Adjunto e das Comunicações, num texto de opinião publicado esta semana, declarou acreditar que “os pássaros não são estúpidos e é provável que se adaptem”. E sublinha que, em 2120, Greta Thunberg poderá aterrar no Montijo “muito mais sábia”. Talvez aterre em cinzas numa urna, mas se os pássaros são inteligentes ao ponto de se desviarem dos aviões deve ser possível a Greta desenvolver uma inteligência post mortem e visitar-nos no futuro aterrando no Montijo.

E as associações ambientais e quem critica o projeto ou defende a opção do novo aeroporto em Alverca? “Críticas desinformadas ou tributárias de visões enviesadas de radicalismos e utopias muito pró neo-naturalismos”. Assim mesmo. Mesmo que ninguém perceba o que quer dizer mas desconfia que o propósito era ofender. É incrível como um texto se torna antológico em 24h pelos piores motivos. Isto seria tudo terrivelmente cómico se não fosse mais um ato de uma tragédia ambiental.

Felizmente, as autarquias de Moita e Seixal, afetadas ambientalmente pelo projeto, têm contestado a construção do aeroporto complementar de Lisboa no Montijo por causa dos fortíssimos impactos negativos sobre as populações. A contestação impede a aprovação do regulador da aviação civil devido a um artigo de um Decreto-Lei que requer parecer positivo de todos os municípios afetados. Por ora as aves estão salvas, mas nós não estamos a salvo do secretário de Estado saído da gaiola das loucas.

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