A geração ‘Now’ portuguesa

Antecipar os rendimentos futuros por via do acesso ao crédito exige ponderação sobre a necessidade efetiva da assunção dessa responsabilidade.

O crédito é a antecipação dos rendimentos futuros. A poupança é resultado da privação do usufruto dos rendimentos presentes e a que efetivamente permite acumulação de capital. A teoria macroeconómica define que, em equilíbrio teórico de longo prazo S=I, ou seja, Savings (poupança) = Investment (investimento).

A taxa de crescimento do crédito em 2018 acelerou relativamente aos anos anteriores, muito devido à descida das taxas de juro. O rendimento disponível das famílias, que atingiu o valor mínimo da década em 2014 (116,7 mil milhões de euros, segundo o Instituto Nacional de Estatística – INE), desde então tem vindo a crescer acima dos três por cento anuais. Tem, no entanto, vindo a ser acompanhado por sucessivas quedas da taxa de poupança. Em dezembro de 2017, chegava aos 4,7% do rendimento, o que já era o valor mais baixo desde meados da década de 90 do século XX.

Recentemente, uma estimativa do INE apontava para um novo mínimo: a taxa de poupança das famílias terá atingido os 4% em setembro de 2018. Trata-se de um número impressionante, quando comparado com os 12,3% de taxa média dos países da zona euro registada no mesmo período.

Com taxas de juro historicamente baixas e sem mecanismos “dignos” de incentivo à poupança (nomeadamente incentivos fiscais relevantes que vigoraram até 2010, e que levaram os portugueses a constituir Planos de Poupança Reforma, por exemplo), a taxa de poupança das famílias portuguesas atingiu o máximo em 2009 (10,9% do rendimento disponível), e desde então tem vindo em “queda livre”. Arrisco-me a dizer que a classe média optou por canalizar uma parte da descida da prestação do crédito à habitação para novas prestações de crédito ao consumo, sobretudo financiamento para aquisição de automóvel.

Isto quer dizer que as baixas taxas de juro estão a marcar a transição para a vida ativa da geração Now portuguesa: não poupar, consumindo o rendimento presente e, ao mesmo tempo, antecipando os rendimentos futuros através do recurso ao crédito. Ora, o modelo só é sustentável se o crédito presente, historicamente barato (taxas baixas) for produtivo de modo a que os rendimentos futuros sejam maiores do que os rendimentos presentes. E isso aplica-se às famílias, como às empresas.

Se o crédito for para a aquisição de conhecimento ou para assegurar rendimento (por exemplo, formação, aquisição de bens e serviços que permitam o acesso a rendimento proveniente do trabalho como a necessidade de meios de transporte ou de acesso à tecnologia), então estaremos perante o ciclo virtuoso do crédito, por via de um financiamento responsável.

O exercício de educar as gerações na perspetiva do futuro é um desafio permanente. Poupar hoje é ter poder para investir amanhã em capacidade produtiva, ou para sustentar imprevistos. Antecipar os rendimentos futuros por via do acesso ao crédito exige ponderação sobre a necessidade efetiva da assunção dessa responsabilidade. Parafraseando Woody Allen, interessa-me o futuro porque é o lugar onde vou passar o resto da minha vida.

Recomendadas

Escola sem chumbo

A suposta poupança de 250 milhões ao acabar com os chumbos será refletida numa perda ainda maior de rendimentos futuros quando a nossa força laboral for ainda menos qualificada do que aquilo que já é hoje em dia.

A minha mesa de trabalho desapareceu

Roubando a reflexão a Charles Darwin, “não serão as empresas mais fortes que sobreviverão, nem as mais inteligentes, mas sim aquelas que souberem adaptar-se à mudança tecnológica do presente e do futuro”.

Ser naturalmente estúpido

Os políticos são cidadãos como todos nós que, voluntariamente, pela sua permanente exposição pública, deixaram de ter vida privada. O seu artificialismo é uma defesa e ao mesmo tempo o alvo de todas as desconfianças.
Comentários