A greve que definiu o regime

Não há oposição em Portugal. Entre o silêncio e a cacofonia, ninguém percebeu o que pensava a direita. Tentando meter medo aos camionistas, Costa meteu medo à oposição.

Nunca fiz greve na vida. Tenho a maior desconfiança quanto aos reais propósitos dos sindicatos do regime. Se, no primeiro caso, tenho tido ao longo da minha vida de trabalho a possibilidade de negociar pessoalmente as condições que considero justas e equilibradas nos limites de compromissos aceitáveis, não ignoro que não faltam casos em que só a tomada de posições de força permite um compromisso de equidade mínima.

Sim, sou a favor da possibilidade legal da greve, apesar de nunca a ter usado. Sim, tenho a clara noção que a greve de nada serve se não provocar incómodo e contrariedade nas nossas vidas, é esta a natureza da sua eficácia. Já no que toca aos sindicatos, tenho uma profunda decepção com o quadro sindical português. Intersindical e UGT não são mais que extensões organizadas dos directórios partidários de onde provêm, nada têm a ver com o ímpeto inicial dos trabalhadores de Chicago, ou com a maturidade e eficácia actuais dos sindicatos nórdicos.

Há, portanto, em Portugal espaço e necessidade para que apareça, cresça e se afirme um movimento de sindicatos independentes que respondam apenas aos trabalhadores que se proponham defender, sendo obedientes a estes interesses sem agendas ocultas e na recusa da manipulação dos trabalhadores.

A greve dos motoristas de matérias perigosas constitui, a par da contestação dos enfermeiros, matéria de profundo interesse para a análise do caso português. Em ambos os casos, há uma ligação profunda à classe que representam, coisa que se perdeu nos sindicatos do regime; há um mandato directo, definido e transparente confiado aos representantes, o que é inédito.

Em ambos os casos, a esquerda que domina os sindicatos do regime agiu de modo articulado para matar, sem dó nem piedade, estes movimentos. A implacável máquina de Costa logo se apressou em perseguir, acusar e difamar os protagonistas numa tentativa de descredibilização; de sindicâncias cirúrgicas à divulgação nas redes de recibos de vencimento falsificados, passando pelo carro de luxo de um representante que, ao contrário de Pedro Nuno Santos, não alienou num acto de profunda hipocrisia, tudo foi usado para para matar à nascença estes movimentos.

Entretanto, Jerónimo faz um dos discursos mais cínicos do seu interminável mandato, a lembrar o capo que vai dizer umas palavras ao enterro do homem que mandou matar, e Catarina desdobra-se nas mentiras sabujas do costume, esperando que os trabalhadores não percebam ao que realmente vem o Bloco. A conjugação de esforços à esquerda para matar estes movimentos, por todos os meios lícitos e ilícitos, deve acender todos os sinais de alarme na sociedade portuguesa.

O ensaio de manifestação de autoridade de Costa foi a mais cristalina revelação do real autoritarismo que lhe vai na alma, e que não hesitará em praticar, tendo os votos suficientes para tal. A situação presente, ilustrada nestes episódios, é a mais grave desde o fim do PREC.

É normal, no jogo político a que nos habituámos, que o PS tenha aplaudido e incitado todas as greves feitas durante o período em que PSD e CDS tentavam tirar o país da bancarrota em que o próprio PS o tinha metido; não é bonito, diz muito dos princípios de quem assim actua, mas faz parte do jogo político, e talvez por isso tenham sido pesadamente derrotados nas eleições e forçados ao contorcionismo da geringonça para tomar o poder apesar da derrota. O que não é normal, nem desejável, é a profunda inabilidade com que a direita passou por estas crises. Não há oposição em Portugal. Entre o silêncio e a cacofonia, ninguém percebeu o que pensava a direita. Tentando meter medo aos camionistas, Costa meteu medo à oposição.

Há claramente um pânico à direita quanto à eficácia do malabarismo mefistofélico de Costa, logo a ausência é melhor que a coragem. Acresce que a direita vigente não tirou tempo para pensar no papel de um sindicalismo moderno e representativo e lida muitíssimo mal com o direito à greve, coisa incompreensível em quem se diz humanista e personalista.

O país tem um péssimo governo, a democracia está em risco como nunca antes e a direita envergonha a memória dos bravos de 75. O calculismo excessivo não é bom em situações de emergência, havia que escalpelizar tudo, investigar, perguntar, esclarecer e denunciar. Não se perdoa à oposição que Costa tenha dirigido esta mega encenação sem contraditório, que tenha criado este circo, apagando a falência do seu Governo nos incêndios sem que ninguém o denunciasse, que faça esquecer as repetidas crises de que foi responsável sem escrutínio.

A campanha vai começar num quadro político profundamente preocupante, o de uma péssima governação, de consolidação de um populismo à portuguesa a fazer lembrar tempos de má memória, e de previsível reforço do poder das forças anti-democráticas. Obviamente, o voto de resistência e salvaguarda do sistema terá de ser à direita, será um voto eminentemente pragmático e útil; apesar de os protagonistas actuais desta área não o merecerem, merece-o cada um de nós, que quer preservar os seus direitos liberdades e garantias.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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