Na Roma imperial, a Guarda Pretoriana nasceu como força de elite para proteger o imperador, mas cedo se transformou em árbitro da política. De guardiões passaram a algo mais temido: a instituição capaz de fazer e desfazer imperadores, de decidir sucessões e de leiloar o poder. Todos sabiam que a estabilidade do império dependia da sua fidelidade, que de muralha defensiva se converteu em sombra omnipresente. O seu verdadeiro poder não estava nas lanças ou nas armaduras, mas na legitimidade que conferiam – ou retiravam – ao poder político.
A Europa de hoje é um pouco como essa guarda: não é a força das suas armas que a distingue, mas o peso da sua economia, o número dos seus habitantes, a centralidade que ocupa na economia americana e mundial. Poderia ser um bloco político com voz própria, capaz de sustentar ou derrubar ordens internacionais, mas, tal como a Guarda Pretoriana, que de árbitro se tornou vulnerável e, por fim, corrupta, também a Europa revela a fragilidade de quem tem a força potencial, mas não a vontade de a exercer. O império subsistia, mas era a Guarda Pretoriana que tantas vezes decidia a ordem; a União Europeia (UE) subsiste, mas continua sem conseguir transformar o seu poder em autoridade.
Foi com essa imagem em mente que se pode olhar ontem para a visita a Washington de Volodymyr Zelensky, acompanhado por uma corte de líderes europeus. Ao estilo de uma guarda pretoriana tardia, a comitiva foi tentar conferir peso político e escudo simbólico à Ucrânia naquilo que poderá ser o mais arriscado e mais ambíguo capítulo da guerra: a negociação de uma paz que ameaça ser mais ditada do que construída.
Donald Trump e Vladimir Putin voltaram a encontrar-se, e o epicentro da diplomacia global transfere-se de Kiev ou de Bruxelas para o Salão Oval de Washington, onde a Europa, mais uma vez, se senta numa cadeira lateral, ansiosa por ser ouvida mas consciente de que a decisão se joga sobretudo a duas mãos.
O reencontro de Trump e Putin serve de palco para uma inversão narrativa: o Ocidente, que durante dois anos prometeu firmeza e unidade, entra agora num ciclo de fadiga estratégica. A paz na Ucrânia discute-se em moldes que parecem mais favoráveis ao Kremlin do que a Kiev. E a Europa, que deveria ser protagonista, apresenta-se como figurante de luxo — tal como a velha guarda pretoriana, emprestando presença e solenidade, mas sem deter o fio condutor da decisão.
A fragilidade política europeia ajuda a explicar esta posição secundária, mas não é apenas de fragilidade que se trata: é também da incapacidade histórica de a União ser proactiva, de nunca ter apresentado uma proposta própria de cessar-fogo na Ucrânia, de nunca ter ousado enfrentar os Estados Unidos – nem na questão das tarifas, nem na exigência orçamental da NATO.
Emmanuel Macron, outrora o rosto da ambição reformista e da autonomia estratégica, encontra-se hoje encurralado pelas sondagens que colocam Jordan Bardella e a extrema-direita da Frente Nacional à frente do seu campo político. O discurso europeu que Macron procurou liderar perdeu vigor, e o Eliseu corre atrás de uma retórica que não cola nem mobiliza. Em Londres, Keir Starmer ensaia o paradoxo de um governo que, mal chegou ao poder, se vê pressionado pela erosão da confiança pública. As notícias de que poderá convocar eleições relâmpago para se relegitimar revelam mais fragilidade do que autoridade.
Na Alemanha, Friedrich Merz, eleito em janeiro sob a promessa de devolver seriedade, ordem e dinamismo ao país, vê agora a realidade das sondagens virar-se contra si: a AfD surge hoje como o partido mais votado, com quase três pontos percentuais de vantagem, enquanto a CDU/CSU de Merz perde terreno e o seu parceiro de coligação, o SPD, também desliza nas preferências eleitorais.
Em vez de um novo fôlego de estabilidade, Berlim continua a revelar-se palco de divisões internas e da incapacidade crónica de transformar a sua liderança económica em autoridade política. A coligação de Merz mostra-se assim cada vez mais fragilizada, acentuada ainda pelas contradições da posição alemã em relação a Israel, que expuseram fissuras tanto no governo como na própria sociedade.
O leste europeu, por sua vez, aproxima-se de eleições que acentuam a distância em relação a Bruxelas: na Bulgária e na Roménia, tudo indica que forças pró-russas ou eurocéticas ganharão espaço e governo, colocando em causa a narrativa da unidade. A Europa fragmenta-se mais depressa do que se integra.
Se olharmos além da Roménia e da Bulgária, o mapa europeu revela ainda mais fraturas: a instabilidade permanente na Sérvia, a Bósnia-Herzegovina que continua a ser uma bomba-relógio prestes a rebentar, a Hungria e a Eslováquia desalinhadas com Bruxelas, a fragilidade do primeiro-ministro sueco envolto em escândalos e a ascensão imparável da extrema-direita em vários países – incluindo Portugal, onde já é a segunda força política.
Neste contexto, não se trata apenas de Trump querer reorganizar a economia mundial; trata-se também da sua clara intenção de interferir na ordem política europeia, ainda formalmente assente em democracias liberais. As intervenções de Trump e, mais recentemente, de J. D. Vance durante as eleições alemãs – abertas, diretas e sem pudor – não foram um acaso. São um sinal de que esse padrão vai continuar, e de que há hoje movimentos europeus que já se alinham sem hesitação com o espírito e a estratégia do movimento MAGA.
Estas fissuras explicam por que razão a União Europeia permanece, no essencial, um bloco económico. O maior parceiro comercial dos Estados Unidos, sim, mas incapaz de se transformar num ator político coeso. Desde o nascimento da NATO que se habituou a abdicar de soberania política em troca de segurança delegada. A submissão recente a Donald Trump confirma esse padrão. Quando o magnata voltou a pedir 5% do PIB em defesa, quase todos os membros europeus correram a alinhar, com a excepção espanhola a soar mais como nota dissonante do que como resistência consequente.
Quando a negociação comercial com Washington terminou na aceitação de tarifas de 15%, ficou claro que a Europa se resignou a financiar o novo New Deal económico de Trump, pagando a fatura da paz social americana e da reindustrialização dos Estados Unidos em troca da ilusão de proximidade política, mas à custa da sua própria autonomia estratégica.
Esta sucessão de cedências ao longo dos anos tornou a União um colosso económico de pés de barro político. Nas capitais europeias repete-se o ritual de evocar a defesa da democracia, a necessidade de proteger Zelensky e de enfrentar a agressão russa. Mas o que se vê em Washington é um cortejo de líderes debilitados, que mais parecem reforçar a legitimidade de Trump do que a de Kiev. A presença europeia ao lado de Zelensky pretendeu ser um sinal de força moral e solidariedade estratégica; na prática, funcionou um pouco como adereço. Tal como a Guarda Pretoriana conferia dignidade imperial, mas usava essa dignidade como moeda de troca, a comitiva europeia presta a Trump a imagem de unidade ocidental ao mesmo tempo que abdica de uma agenda própria.
A fragilidade é, em larga medida, autoinfligida. Durante anos, a União habituou-se a ser uma potência normativa, a ditar regulamentos e padrões técnicos, mas não a gerir poder duro, diplomático ou militar. Quando a guerra regressou ao continente, a resposta foi improvisada: sanções, envio de armamento, promessas de fundos de reconstrução. Faltou sempre a tradução política, a definição clara de um objectivo final. A unidade foi feita de circunstâncias e não de projecto.
Hoje, com a fadiga da guerra a corroer o entusiasmo, com as sondagens a empurrar governos para a defensiva e com as eleições sucessivas a trazer forças eurocéticas ao poder, a Europa não consegue mais do que exibir o seu maior trunfo: presença económica, mas ausência de comando político.
O problema não é apenas externo. É interno e estrutural. A União continua a viver sob a lógica do compromisso entre Estados-membros, o que lhe confere solidez comercial, mas fragilidade geoestratégica. A cada crise, recorre à mesma solução: esperar que Washington decida. É assim na NATO, é assim nas tarifas, é assim agora nas negociações de paz. A ilusão de autonomia estratégica nunca resistiu ao primeiro embate com a realidade.
Por isso, a visita a Washington, com Zelensky ao centro e a guarda pretoriana de líderes europeus a rodeá-lo, será lembrada menos como acto de afirmação e mais como fotografia da dependência. A imagem será vendida como prova de unidade, mas ficará como retrato da fragilidade. A democracia europeia precisa de símbolos, mas precisa ainda mais de projectos. O império romano aprendeu da pior forma que uma guarda pretoriana sem império sólido é apenas um grupo de soldados que, um dia, decide trocar de senhor. A Europa, ao seguir nesta condição de satélite, arrisca-se a repetir a lição: não basta estar presente, é preciso comandar.
No fim, talvez a história registe esta viagem não como a defesa heroica de Kiev, mas como a consolidação de um padrão: o de uma Europa que paga a reconstrução americana, que aceita ditames estratégicos exteriores e que se resigna ao papel de bloco económico subalterno. A guarda pretoriana marchou a Washington para segurar Zelensky, mas também para se segurar a si própria. O problema é que, tal como na Roma antiga, a legitimidade nunca se compra apenas com presença. Compra-se com autoridade – e essa, a Europa ainda não encontrou.



